Por: Charles Oliveira | Prompte et Sincere
Romanos 9.6-9
A grande questão que Paulo está respondendo aqui em Romanos 9 é: “Por que Israel rejeitou Jesus como o Cristo?” A melhor maneira de responder a essa pergunta é com a doutrina da predestinação. Por que as pessoas ouvem falar de Jesus e, embora conhecendo as profecias, O rejeitam? Como João escreveu: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (João 1:11). Em outras palavras, a pergunta era: “Quanto à salvação de Israel, a Palavra de Deus falhou?” A resposta de Paulo é clara e simples: “E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado, porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência” (vv. 6-7).
Quando trabalhei como motorista de Uber, transportei uma família judaica que morava em Tel Aviv. Perguntei ao pai sobre a diferença entre o judaísmo e o cristianismo. Ele disse: “Nós não acreditamos que Jesus seja o Messias. Também não evangelizamos, como fazem os cristãos. Acreditamos que somos salvos porque somos judeus.” Essa visão reflete a mentalidade judaica nos dias de Paulo. Os judeus acreditavam que eram salvos simplesmente porque eram descendentes de Abraão. J. V. Fesko observa em seu comentário que “a palavra de Deus cumpre Seus propósitos e metas. Os contemporâneos de Paulo pensavam, sem dúvida, que a sua descendência física, o seu DNA, constituía a base da sua aceitabilidade diante de Deus” (Fesko, 2019, p. 254).
Paulo deixa claro que ninguém é salvo com base no privilégio de sangue. Lembre-se do que Paulo escreveu em Romanos 2.28-29: “Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus.”
A argumentação de Paulo lembra aos seus leitores o que aconteceu com os descendentes de Abraão. Ismael também era filho de Abraão e circuncidado, mas a verdadeira descendência de Abraão foi chamada em Isaque. Sproul escreveu: “Ismael era filho de Abraão, mas Ismael não era filho da promessa” (Sproul, 2009, p. 313). É por isso que Paulo argumentou que “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência”. John Murray explicou que Paulo está ensinando “que existe um ‘Israel’ dentro do Israel étnico” (Murray, 2022, p. 342).
Deus fez promessas a Israel, mas não devemos confundir Israel como nação com Israel como eleito de Deus e povo da aliança. Jesus fez distinção entre aqueles que eram Seus discípulos e aqueles que verdadeiramente eram Seus discípulos (João 8.31). Em Gálatas 4.28-29, Paulo explicou que somos filhos da promessa assim como Isaque. Ismael nasceu segundo a carne, mas Isaque nasceu segundo o Espírito. Nós também. Este é o verdadeiro Israel: aqueles que nasceram do Espírito são o “Israel de Deus” (Gálatas 6.16). Assim, o que define quem é verdadeiramente israelita não são os genes, mas a fé em Cristo. No Antigo Testamento, aqueles que acreditavam no Messias prometido eram verdadeiramente israelitas. No Novo Testamento, aqueles que acreditam no Messias, Jesus Cristo, que já veio, são verdadeiramente israelitas, mesmo aqueles que não têm o sangue de Abraão segundo a carne. Paulo explicou esse fato dizendo: “Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa. Porque a palavra da promessa é esta: Por esse tempo, virei, e Sara terá um filho” (vv. 8-9). Em outras palavras, de acordo com N. T. Wright, “o que conta é a graça, não a raça” (Wright, 1991, p. 238).
Assim, querido leitor, alegre-se no Senhor, porque nós, crentes, somos descendentes de Abraão pela fé. Suas promessas também são nossas. O Mediador apontado que substituiu seu filho no Monte Moriá também é nosso Mediador. A terra prometida é nossa. Não aquela na Palestina, manchada pelo pecado, idolatria, prostituição e sangue, mas a Nova Terra, purificada e recriada pelas obras e eficácia do Filho de Deus, que é poderoso para fazer novas todas as coisas.