Por: Charles Melo de Oliveira | Prompte et Sincere
Quando cheguei aos Estados Unidos para cursar o mestrado no Puritan Reformed Theological Seminary, em Grand Rapids, percebi a existência de muitas igrejas independentes com um número reduzido de membros – 25, 20 e até mesmo 15 pessoas. Devido à situação econômica das famílias americanas, é possível que uma igreja pequena ainda consiga sustentar seu pastor, dependendo da região do país. Portanto, o sustento financeiro não me parece ser o problema central dessas igrejas pequenas e conservadoras. O verdadeiro desafio reside na visão de mercado que tem sido absorvida pelos membros das igrejas nos dias atuais.
O maior obstáculo na condução de uma igreja pequena envolve três aspectos: crescimento, independência financeira e formação de liderança. Quando uma igreja é plantada em uma região secularizada, como a Europa, o nordeste e a costa oeste dos Estados Unidos ou o Canadá, há ainda o desafio adicional de lidar com pessoas que não querem falar sobre espiritualidade, muito menos sobre a Bíblia. Isso, sem dúvida, impõe uma dificuldade extra para os pastores que cuidam de igrejas pequenas ou que estão plantando congregações nesses locais – como é o meu caso. No entanto, o que dizer sobre a tendência de famílias cristãs, inclusive reformadas, que, ao se mudarem para uma região onde as igrejas fiéis à Palavra são pequenas, em vez de se unirem ao pequeno grupo e se tornarem instrumentos para seu fortalecimento, preferem “rebaixar” a qualidade do alimento espiritual que recebem e frequentar uma igreja evangelical maior, mas com mais recursos?
Como pastor de uma igreja pequena na cidade de New Rochelle, no estado de Nova York, percebo que muitas famílias reformadas que chegam à região não perguntam sobre o ensino da igreja ou se a pregação é expositiva, mas sim se a igreja tem berçário equipado, grupo de jovens, outras crianças, ministério de casais, banda musical e outros atrativos. Compreendo que devemos buscar o melhor para nossos filhos e procurar igrejas que ofereçam meios de edificação para crentes de diferentes idades e realidades. No entanto, meu ponto de preocupação é que essa busca por igrejas com mais estrutura não tem sido guiada por critérios bíblicos e missionários, mas pela mentalidade de mercado que muitas famílias cristãs têm assimilado. Se a igreja tem departamento de jovens, coral, aulas de música e atividades para a terceira idade, ela se torna “atraente” e tende a ganhar fiéis como consumidores. Por outro lado, se é pequena e está lutando para crescer – sem ainda possuir um número de membros suficiente para criar diversas frentes de trabalho – acaba sendo ignorada pelo “mercado”.
Lembro-me de minha infância em Belo Horizonte, quando meus pais ajudaram a plantar uma igreja pequena. Íamos ao culto aos domingos à tarde com alegria no coração, cantando hinos com entusiasmo. Não havia estudo para crianças, grupo de música ou sistema de som – apenas um harmônio doado por outra igreja que possuía instrumentos melhores. A visão da minha família e de outras que se uniram ao trabalho era missionária, voltada para fortalecer aquele pequeno começo. Curiosamente, a mentalidade de mercado atual provavelmente teria impossibilitado a existência daquela igreja.
As Escrituras nos mostram um exemplo interessante do que acontece quando as famílias crentes são guiadas por uma visão missionária em vez de uma lógica mercadológica. Em Atos 8.1,4, Lucas narra o momento em que uma grande perseguição liderada por Saulo se abate sobre a igreja:
“Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria… Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra.”
O critério das famílias dispersas não era buscar uma igreja com melhor estrutura e benefícios, mas pregar a Palavra onde quer que fossem. O resultado foi o plantio de muitas igrejas e o avanço do cristianismo em todas as direções.
Outro fator que pode estar conduzindo as famílias crentes a essa visão mercadológica na busca por uma igreja é uma compreensão distorcida do próprio cristianismo. Jesus ensinou que servir uns aos outros é uma virtude essencial, demonstrada por Ele mesmo ao lavar os pés dos discípulos (João 13:1-20). Pedro também exortou os crentes dispersos na diáspora a servirem uns aos outros:
“Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pedro 4:10).
Infelizmente, os crentes modernos não querem servir – querem ser servidos.
Para concluir, não desejo que este texto seja interpretado como um desabafo de um pastor que cuida de uma igreja pequena, com poucos recursos, e que frequentemente é preterido por famílias que buscam “produtos mais competitivos no mercado de igrejas”. Meu objetivo é desafiar aqueles que leem este artigo a mudarem de perspectiva, caso percebam que estão sendo influenciados por essa visão.
Penso que a prioridade deveria ser o oposto: as congregações pequenas, que necessitam de membros para se desenvolver, deveriam ser a primeira opção das famílias cristãs. Quando se mudarem para outra cidade ou estado, em vez de procurarem uma igreja que ofereça atividades para todas as idades, busquem uma igreja fiel à Palavra que precise de pessoas dispostas a servir e contribuir para o seu crescimento. Sigam o exemplo da igreja primitiva, que, mesmo sendo dispersa, levava consigo o desejo de pregar e estabelecer novas comunidades cristãs – em vez de procurar congregações que oferecessem mais comodidades.
Isso também é “fazer missões” e deveria estar no DNA de todo crente. Tenham alegria em serem pioneiros. A satisfação de ver um trabalho pequeno crescer e frutificar não tem preço.