Por: Ricardo Cesar Toniolo | Prompte et Sincere
Você já considerou que os textos bíblicos possuem uma profundidade de significado que vai além do que é imediatamente visível? Muitas vezes, a leitura tradicional se limita às questões teológicas e históricas, deixando de explorar a riqueza literária das Escrituras.
Elementos como estrutura narrativa, enredo, personagens e simbolismo oferecem novas perspectivas que aprofundam nossa compreensão dos textos sagrados. Somente nos últimos anos estudiosos passaram a reconhecer a importância dessas abordagens na exegese bíblica, abrindo caminho para uma leitura mais rica e contextualizada das Escrituras. No entanto, esse reconhecimento foi precedido por um longo período de resistência e negligência da crítica narrativa nos círculos acadêmicos.
Durante muito tempo, os manuais de hermenêutica e exegese pouco ou nada mencionavam essa abordagem (Berkhof, 1994; Fee & Stuart, 1984; Martínes, 1984). Por exemplo, Douglas Stuart (1984), ao discutir aspectos literários, limita-se à análise do paralelismo na poesia hebraica e à noção de contexto literário. De modo semelhante, D. A. Carson (1992), em A Exegese e suas Falácias, examina erros comuns na interpretação bíblica sob uma perspectiva estritamente linguística.
Essa resistência à abordagem literária da Bíblia também pode ser observada na forma como diferentes correntes metodológicas abordaram o tema. Enquanto estudiosos ligados aos métodos críticos foram os primeiros a adotar a análise literária, os defensores do método gramatical demonstraram receio em relação a essa abordagem, temendo que ela se vinculasse à exegese crítica (Leonel, 2012, p. 111). Apesar dessa resistência inicial, teólogos conservadores têm, gradativamente, reconhecido o valor dos elementos literários na interpretação bíblica, ainda que de maneira incipiente. Entre os aspectos explorados, destacam-se a análise do gênero literário e do estilo textual (ANGLADA, 2006; BRUGGEN, 1998; KAISER & SILVA, 1994; SPROUL, 2003; GREIDANUS, 2006). Contudo, é comum que alguns confundam elementos literários com conceitos puramente linguísticos.
Maria de Lourdes Corrêa Lima (2014) argumenta que os métodos diacrônicos do histórico-crítico precisam ser complementados (p. 65). Entre os métodos sincrônicos, a análise narrativa surge como uma alternativa relevante (p. 66-67), abrangendo o estudo dos gêneros literários do Antigo e do Novo Testamento (p. 171-204). Entretanto, mesmo em sua obra, a abordagem literária não ocupa posição central.
Dentre os estudos mais recentes traduzidos para o português, A Espiral Hermenêutica, de Grant R. Osborne (2009), merece destaque. Com uma abordagem conservadora, ele valoriza a dimensão literária na interpretação bíblica, dedicando uma seção inteira à análise de gêneros literários (p. 228-439). Ele examina elementos da análise narrativa como autor e narrador implícitos, ponto de vista, enredo, caracterização, diálogo e leitor implícito (p. 254-271), além de apresentar uma importante crítica aos excessos dessa abordagem (p. 271-276).
Outro estudo relevante é Convite à Interpretação Bíblica, de Andreas J. Köstenberger e Richard D. Patterson (2015), que dedica uma seção extensa ao gênero literário (p. 221-550). Na parte dedicada à narrativa (p. 225-247; 343-389), os autores exploram subgêneros, elementos internos e externos, aspectos estilísticos e propõem uma metodologia interpretativa.
O avanço da abordagem literária na pesquisa bíblica deve muito às contribuições dos críticos literários Erich Auerbach em Mimesis (publicado pela primeira vez em 1946) e Robert Alter em A Arte da Narrativa Bíblica (publicado pela primeira vez em 1981). Desde então, várias obras vêm consolidando a análise narrativa, como Poetics and Interpretation os Biblical Narrative, de Adele Berlin (1994), Literary Approaches to Biblical Interpretation, de Tremper Longman III (1987), A Bíblia como Literatura: uma Introdução, de John Gabel e Charles Wheeler (1993), A Bíblia como Literatura, de José Pedro Tosaus Abadia (2000). Entre os estudiosos que aplicam diretamente a teoria narrativa ao texto bíblico, destacam-se Richard Pratt Jr. em Ele nos Deu Histórias (2004), Daniel Marguerat e Yvan Bourquin em Para Ler as Narrativas Bíblicas (2010) e Jaldemir Vitório em Análise Narrativa da Biblia (2016).
No Brasil, a abordagem literária tem sido aprofundada por pesquisadores como João Cesário Leonel Ferreira, que analisa textos narrativos bíblicos, especialmente nos Evangelhos. Destaca-se os seus livros Mateus, o evangelho (2013) e na primeira parte do livro Bíblia, literatura e linguagem (LEONEL, ZABATIERO, 2011). Sua atuação nessa área tem se mostrado profícua, formando e influenciando estudiosos, produzindo muitos artigos e conduzindo grupo de pesquisa na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
O crescente reconhecimento da importância da teoria literária nos estudos bíblicos sugere um caminho promissor para uma compreensão mais rica das Escrituras. Ao integrar análises históricas, linguísticas e literárias, os estudiosos ampliam as possibilidades interpretativas, favorecendo uma leitura mais profunda e contextualizada da Palavra de Deus.
A fim de demonstrar como a análise narrativa amplia nossa compreensão das Escrituras, consideremos um exemplo prático: a história de Judá e Tamar em Gênesis 38. Essa narrativa nos ajudará a entender como uma abordagem literária pode nos ajudar a compreender um texto em seu contexto.
À primeira vista, essa narrativa pode parecer um episódio isolado e sem conexão com a história de José (Gênesis 37 e 39 em diante). No entanto, ao analisarmos literariamente sua estrutura e função dentro do livro de Gênesis, percebemos que essa passagem desempenha um papel crucial na construção do enredo.
Em termos de estrutura, a história de Judá e Tamar está posicionada entre a venda de José ao Egito (Gn 37) e seu serviço na casa de Potifar (Gn 39). Essa inserção parece interromper o fluxo da narrativa principal, mas, ao analisarmos a composição literária, percebemos que os temas se entrelaçam.
Primeiro, há um paralelismo temático entre Tamar e a esposa de Potifar. Ambas as mulheres tentam seduzir um personagem masculino (Tamar com Judá e a esposa de Potifar com José). No entanto, enquanto José resiste à tentação e é injustamente punido, Judá sucumbe e acaba envergonhado. Esse contraste destaca a integridade de José em oposição à falha moral de Judá.
Além disso, a transformação de Judá ao longo da narrativa é crucial para a reconciliação familiar posterior. Em Gênesis 44, é Judá quem se oferece para ficar no lugar de Benjamim quando José quis detê-lo no Egito, demonstrando uma mudança significativa de caráter – algo que começou com sua experiência em Gênesis 38.
Essa relação entre os episódios é mais facilmente percebida por meio da análise literária da estrutura narrativa, que revela como Gênesis 38 não é um episódio aleatório, mas um elemento essencial para a construção do arco narrativo de Judá e José. Essa análise consta nos livros “Em Espelho Crítico” e A Arte da Narrativa Bíblica”, ambos de Robert Alter. O comentário de Gênesis de Bruce K. Waltke, que foi publicado originalmente em 2001, faz uso da abordagem de Alter (citado em WALTKE, 2010, p. 628, 643).
A análise narrativa não é apenas uma ferramenta acadêmica, mas um recurso para pregadores, professores e estudantes da Bíblia que desejam comunicar as verdades das Escrituras de maneira mais envolvente. Ao explorar a estrutura narrativa, os elementos literários e as escolhas narrativas dos autores bíblicos, somos levados a uma leitura mais profunda e significativa. Isso não apenas amplia nossa compreensão teológica, mas também fortalece nossa relação com Deus ao enxergarmos sua Palavra com novos olhos. Dessa forma, a análise narrativa se revela um recurso essencial tanto para a exposição bíblica quanto para o estudo devocional, permitindo que os textos sagrados falem com renovada clareza e emoção ao coração do leitor.
Ela não substitui os métodos tradicionais de exegese, mas os complementa, oferecendo uma leitura mais sensível ao texto bíblico. Ao considerar a estrutura narrativa e os elementos literários, o intérprete amplia sua compreensão das Escrituras e percebe com mais clareza a mensagem e a intenção autoral, afinal “se desejamos saber qual é a teologia do narrador, é essencialmente sua estratégia narrativa que convém questionar” (MARGUERAT; BOURQUIN, 2010, p. 35).
Dessa forma, a análise narrativa enriquece o estudo acadêmico e fortalece a pregação e a aplicação pastoral, permitindo que a Palavra de Deus seja comunicada com maior profundidade e impacto. Reconhecendo tanto a inspiração divina quanto os aspectos humanos e literários da Escritura, ampliamos nossa capacidade de interpretar e comunicar a Palavra de Deus com temor, clareza e profundidade.
Referências Bibliográficas
ABADIA, José Pedro Tosaus. A Bíblia como literatura. Tradução de Jaime A. Clasen. Petrópolis: Vozes, 2000.
ALTER, Robert. A arte da narrativa bíblica. Tradução de Vera Pereira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
ALTER, Robert. Em Espelho Crítico. Tradução de Sérgio Medeiros e Margarida Goldsztajn. São Paulo: Perspectiva, 1998.
ANGLADA, Paulo Roberto Batista. Introdução à hermenêutica reformada: correntes históricas, pressuposições, princípios e métodos linguísticos. Ananindeua: Knox Publicações, 2006.
AUERBACH, Erich. Mimesis: A representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2011
BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação bíblica. 5. ed. Tradução de Merval Rosa. Rio de Janeiro: Juerp, 1994.
BERLIN, Adele. Poetics and interpretation of biblical narrative. Winona Lake: Einsebrauns, 1994
BRUGGEN, Jakob Van. Para Ler a Bíblia. Tradução de Theodoro J. Havinga. São Paulo, Cultura Cristã, 1998.
CARSON, D. A. A exegese e suas falácias: perigos na interpretação da Bíblia. Tradução de Valéria Fontana. São Paulo: Vida Nova, 1992.
FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Entendes o que lês? Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1984.
GABEL, John B; WHEELER, Charles. A Bíblia como literatura: uma introdução. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1993.
GREIDANUS, Sidney. O pregador contemporâneo e o texto antigo: interpretando e pregando literatura bíblica. Tradução de Edmilson Francisco Ribeiro. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
KAISER, Walter C.; SILVA, Moisés. An introduction to biblical hermeneutics: the search for meaning. Grand Rapids: Zondervan, 1994.
KÖSTENBERGER, Andreas J.; PATTERSON, Richard D. Convite à interpretação bíblica: a tríade hermenêutica. Tradução de Daniel Hubert Kroker, Thomas de Lima e Marcus Throup. São Paulo: Vida Nova, 2015.
LEONEL, João. Estética da recepção como exemplo de contribuição da teoria literária para a teologia exegética. Teoliterária, São Paulo, v. 2, n. 4, p.100-122, 2012.
LEONEL, João. Mateus, o evangelho. São Paulo: Paulus, 2013.
LIMA, Maria de Lourdes Corrêa. Exegese bíblica: teoria e prática. São Paulo: Paulinas, 2014.
LONGMAN III, Tremper. Literary approaches to biblical interpretation. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1987.
MARGUERAT, Daniel; BOURQUIN, Yvan. Para ler as narrativas bíblicas: iniciação à análise narrativa. Tradução de Margarida Oliva. São Paulo: Loyola, 2010.
MARTÍNES, José M. Hermeneutica bíblica: como interpretar las Sagradas Escrituras. Barcelona: Editorial Clie, 1984.
OSBORNE, Grant R. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. Tradução de Daniel de Oliveira, Robinson N. Malkomes e Sueli da Silva Saraiva. São Paulo: Vida Nova, 2009
PRATT, Jr., Richard L. Ele nos deu histórias: um guia completo para a interpretação de histórias do Antigo Testamento. Tradução de Suzana Klassen. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
SPROUL, R. C. O conhecimento das Escrituras: passos para um estudo bíblico sério e eficaz. Tradução de Heloísa Cavallari Ribeiro Martins. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
STUART, Douglas. Old Testament exegesis: a primer for students and pastors. 2. ed. Philadelphia: The Westminster Press, 1984.
VITÓRIO, Jaldemir. Análise narrativa da Bíblia: primeiros passos de um método. São Paulo: Paulinas, 2016.
WALTKE, Bruce K. Comentários do Antigo Testamento: Gênesis. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
ZABATIERO, Júlio P. T.; LEONEL, João. Bíblia, literatura e linguagem. São Paulo: Paulus, 2011.