Por: Gabriel Araujo Zambon | Prompte et Sincere
COSMOVISÃO CRISTÃ
Análise do filme “Um Sonho de Liberdade”, com Morgan Freeman e Tim Robbins (Castle Rock, 1994).
Primeira parte – Descrição geral
A história do filme “Um sonho de liberdade” (The Shawshank Redemption) se inicia diante do julgamento de um crime, onde o acusado, Andy, um banqueiro bem-sucedido, é declarado culpado de ter matado sua esposa e o amante dela. Todas as evidências apresentadas no tribunal parecem deixar bem evidente que ele seria o assassino. A frase do promotor, referindo-se às vítimas do crime – “Eles pecaram…, mas seu crime era tão grave a ponto de merecer a pena de morte?” – já indica como o autor se apropria de alguns termos do Cristianismo no filme, algo que pode ser percebido pelo próprio título inglês do filme, Redemption (redenção).
A cena da chegada de Andy ao presídio apresenta dois personagens: Samuel Horton, diretor do presídio, e seu “capanga”, Byron Hadley. O diretor apresenta-se como um cristão rígido, dizendo que não toleraria blasfêmia em seu presídio, e que acreditava no poder da disciplina e da Bíblia. Contudo, na mesma cena, já se percebe o contraste de sua profissão de fé e ética, através da violenta “disciplina” de seu capanga sob suas ordens.
Andy começa a adaptar-se ao novo ambiente social, aproximando-se de Red, um prisioneiro mais velho e contrabandista, ao mesmo tempo em que sofre com a perseguição do grupo das “irmãs”, um grupo de homossexuais violentos. A seguir, acontece um evento que marca uma aproximação maior, em amizade, de Andy com Red e seu grupo, além de respeito por parte dos guardas. Andy se arrisca ao propor ajuda a Hadley numa questão tributária, pedindo em troca uma recompensa em cerveja para os colegas, durante um trabalho de reparação do telhado da fábrica na prisão.
Andy começa a chamar a atenção por sua capacidade profissional, e logo o diretor o traz para trabalhar na biblioteca como um pretexto, para na verdade, prestar assessoria financeira e tributária aos guardas. Logo após, Sr. Brooks, um prisioneiro idoso que trabalhava na biblioteca, é libertado, mas acaba suicidando-se diante da nova realidade fora da prisão.
O empenho de Andy o leva a conseguir a expansão da biblioteca da prisão, após persistente envio de cartas ao senado estadual. Concomitantemente, Andy torna-se o contador do esquema de lavagem de dinheiro e propinas do diretor. Uma proximidade que permitiu dar seguimento a melhorias da biblioteca e incentivo aos estudos dos prisioneiros.
A chegada de Tommy Williams à prisão marca uma nova fase, quando este jovem se torna um novo “projeto” para Andy no ensino. Também traz à tona a revelação da inocência de Andy, já que Tommy teria conhecido em outra cadeia, o verdadeiro assassino no crime pelo qual Andy foi condenado. O episódio desperta o temor e fúria do diretor em perder Andy em seu esquema de lavagem de dinheiro. Essa fúria, resultou em ordem para executar Tommy e em punições severas a Andy para que este prosseguisse em sua função.
Quando o enredo dava a entender que Andy se suicidaria, acontece então sua fuga inesperada. Ele foge para Zihuatanejo, no México, como destino de seu “paraíso”, denunciando o esquema do diretor e levando uma porção de seu dinheiro, enquanto Hadley é preso e o diretor acaba tirando sua própria vida, para não ser preso. O filme termina com o reencontro de Red, liberto após 40 anos de prisão, e Andy na praia no México.
De maneira geral, o filme é amplo o suficiente em temáticas para permitir inúmeras interpretações. Pode-se dizer que a ideia de redenção no enredo é algo puramente material, a não ser que se fizesse uma interpretação alegórica quase mística das temáticas. A seguir, analisam-se algumas das cosmovisões que ressoam ao longo do filme.
Segunda parte – Cosmovisões identificadas no filme
Como levantado anteriormente, a impressão que o filme causou foi a de uma salvação material, uma história de redenção que utiliza emprestado termos da própria fé cristã. O naturalismo ficou marcado, tanto nesta proposta de salvação, quanto no contraste com o diretor do presídio, Sr. Horton, como um representante de extrema hipocrisia da alternativa cristã sobrenatural. O emblema disso é quando Horton diz a Andy, no início da trama, que a salvação estaria dentro da Bíblia. Depois, isso é parafraseado ao descobrir que o martelo que permitiu a escavação do túnel para a fuga estava guardado dentro dela.
Logo no início da história, há uma frase que destaca bem a visão naturalista de mundo. Após saberem da morte do detento novato, por quem haviam feito uma aposta, Andy pergunta qual seria o nome dele, ao que um deles responde: “O nome dele não importa. Ele morreu.” Isso ilustra claramente a ideia de que a existência do homem termina com sua morte, negando qualquer coisa transcendental ou metafísica.
O último destaque para o naturalismo pode ser visto na conversa de Andy com Red na biblioteca, ao relatar o esquema de lavagem de dinheiro. Ele afirma que sempre tinha sido correto anteriormente, mas após a sua prisão, tornou-se um “vigarista”. Ou seja, ele agora quebrava leis morais absolutas em prol de um bem maior, o benefício dos outros prisioneiros. Isso revela um aspecto da ética naturalista, vista por meio do Manifesto Humanista II, que apregoa: “Afirmamos que os valores morais derivam suas fontes da experiência humana. A ética é autônoma e situacional, não necessitando de sanção teológica ou ideológica. A ética origina-se da necessidade e interesse humano”. Dessa forma, o pragmatismo de Andy se torna coerente com essa visão.
Essa zombaria de valores absolutos é também uma marca do pós-modernismo, indicando uma falta de padrão objetivo, apenas concepções subjetivas, resultando em uma ética situacional e relativista. A secularização pós-modernista também pode ser referenciada, já que a vida parece ser o aqui e agora, desprezando as coisas religiosas.
Outras situações que elucidam ideias pós-modernas são as conversas ocorridas a partir do suicídio do Sr. Brooks, de que ele (e Red também se identifica assim) havia se tornado “institucionalizado”. Ou seja, se moldou tão plenamente à instituição prisional que perdeu sua própria essência. Esses diálogos reverberam muito as ideias de Michel Foucault, nome símbolo do pós-modernismo em sua crítica às instituições sociais e o papel delas em controlar e manter o poder sobre as pessoas.
Ainda é possível perceber no destaque à música, quando Andy toca a ópera de Fígaro para os presidiários, uma tendência secular, de utilizar algo bom da criação como um entretenimento existencial. Isso lembra as palavras de Friedrich Nietzsche: “Sem a música, a vida seria um erro”. já que não há sentido, a música é uma boa companhia para prosseguir.
Outra temática presente na trama é a do suicídio, que traz consigo a visão niilista de mundo. O niilismo nega tudo, conhecimento, ética, beleza, sentido para a existência. O caso do Sr. Brooks é marcante para essa cosmovisão, demonstrada na vida de um homem que após colocar toda sua identidade em seu papel na prisão e na rotina dela, não consegue encontrar significado fora daquele ambiente. Isso o leva à atitude suprema do niilismo, o suicídio.
O suicídio do diretor Horton de maneira mais sutil, também ressoa uma postura niilista. Ao se deparar com a certeza de que o juízo de Deus veio mais cedo do que ele esperava, ele comete suicídio como uma fuga das consequências. Contudo, isso revela, mais uma vez, que sua manifestação pública de fé não era acompanhada de uma confiança e fé verdadeira em Deus. Ao utilizar a aparência de fé para manter uma imagem de confiança, usando-a por interesse, ele demonstra um ateísmo prático. É aí que entra o seu niilismo: há um vazio tão grande para a crença em Deus, que ele não consegue acreditar ou confiar nEle, a ponto de, se existir, é apenas para “ser usado como um potencializador do próprio indivíduo” (Dr. Jonas Madureira, em https://www.youtube.com/watch?v=AYOExTv9UpY, minuto 4:20). Isso aproxima a atitude do diretor ao uso interesseiro das teologias da prosperidade e do coaching atualmente.
Como superação ao niilismo, uma forte conotação existencialista é encontrada no enredo. O existencialismo surge como uma forma de transcender o niilismo, e no filme pode ser visto vislumbres daquele para manter a luta contra a perda da essência individual que levou Brooks à morte.
Partindo da definição de que “o existencialismo frisa a necessidade de fazer escolhas vitais, usando a liberdade humana em um mundo contingente e aparentemente desprovido de propósito” (Francis Schaeffer, O Deus que intervém, p.279), percebe-se, na trama, vários momentos de exaltação a essas sensações de liberdade. A primeira delas, quando os doze presidiários foram recompensados com as cervejas após o gesto de Andy, Red descreve que naquele momento, sentia a liberdade de um homem livre, cuidando de sua própria casa, com a sensação de que “éramos os senhores da criação”. Essa frase ilustra a autonomia existencialista, que exclui o divino e segue a linha naturalista.
Outra maneira de notá-lo é no uso das artes e da educação como forma de manter vivo esse anseio por liberdade e como formas de transformação e entretenimento existencial. O projeto de “redenção” de Andy é um ato da vontade, incluindo uma salvação material, num “paraíso” terrestre onde não haveria memória do passado. A esperança é mantida e cultivada, mesmo que terrestre, e no fim, Red, que resistia em nutri-la, abraça-a e se junta a Andy no México. Sua frase “nunca estive tão ansioso para algo, mesmo sabendo que o futuro é incerto”, é outro lembrete existencialista.
Por fim, o lema “esforce-se para viver, ou esforce-se para morrer”, dito por Andy, resume a ênfase existencialista do filme, a qual apregoa a autojustificação por meio de um ato da vontade. Andy também poderia ser comparado ao homem que teve sua “experiência final”, não-racional, e que daria sentido à vida, segundo a concepção do existencialismo de Karl Jaspers.
Duas frases remetem a ideias que se aproximam de uma visão mística, ou espiritualista talvez próxima à Nova Era: uma no começo, quando Red diz que “as forças em jogo decidiram que…” (sobre a reforma do telhado) e outra no fim, na conversa de Andy com Red, em que ele diz que “o azar ou má sorte estava por aí e tinha que pegar alguém”.
Terceira parte – Criação/ Queda/ Redenção
Toda verdade e toda beleza vêm de Deus, e sua ordem criacional revela sua perfeição. Dessa forma, toda boa dádiva, toda justiça, bondade, verdade, beleza, enfim, tudo que há de positivo no filme e no mundo remete ao Criador soberano, que fez todas as coisas sem mácula. Entretanto, a queda desfigurou essa perfeição, nos deixando com vislumbres da glória original, mas que são suficientes para revelar seu Autor.
Vemos no filme vários temas que podem exemplificar essas verdades. Comecemos então pelos relacionamentos. Deus nos criou para Ele, para uma perfeita comunhão com Ele, com nosso próximo e com a criação. Os três mandatos resumidos aqui se interligam, tanto que o resumo da lei torna claro: “Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.(…) O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Mateus 22:37, 39 (ARA).
A amizade entre Andy e Red, e o companheirismo deles com seu grupo de amigos reflete um pouco da beleza de bons relacionamentos. Como a Bíblia diz em Eclesiastes 4:9 (ARA) “Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho.” O vínculo entre eles certamente deixa a passagem, até mesmo por um lugar como prisão, mais suave e menos dolorosa. O risco que Andy corre a fim de propor o acordo com Hadley na questão tributária e, assim, beneficiar seus colegas com cervejas, demonstra uma atitude sacrificial que só encontra base real de coerência na visão cristã.
Contudo, o desvio e perversão nos relacionamentos é bem evidente na violência ao longo da história. O começo do filme já conta a morte da esposa de Andy e seu amante. A “disciplina” que o diretor defende é na verdade uma completa perversão e truculência, resultando em muitas punições vingativas e até homicídios. Hadley executa um homem no começo de maneira banal, como forma de demonstrar poder sobre os presos, e mais ao fim, a mando do diretor, assassina Tommy como queima de arquivo. “Não matarás” dos dez mandamentos é transgredido tanto em ações como em sua essência.
Outra temática na trama são os desvios em várias formas de pecado sexual. A começar pelo adultério da esposa de Andy; sua revelação de ter feito sexo no dia do pedido de casamento, ou seja, fora do casamento; os constantes abusos sexuais do grupo das “irmãs”; e a imoralidade cotidiana de cartazes contendo imoralidade na prisão. A Bíblia afirma em Hebreus 13:4 (ARA) – “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros”, que mostra a vontade de Deus para o relacionamento sexual dentro do casamento. Romanos 1 condena o homossexualismo, afirmando que é expressão da ira e entrega de Deus do homem à sua perversão.
A bênção do trabalho é vista no filme pela competência de Andy nos negócios. Sua destreza em lidar com a assessoria financeira, contábil e tributária, além de sua dedicação e persistência em pedir verbas para a biblioteca e para a educação dos presidiários, denotam como o trabalho é uma forma de servir e amar ao próximo, glorificando a Deus.
A Queda não anulou o mandato cultural: “E Deus lhes disse: “Sede fecundos e multiplicai e enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que se move sobre a terra” (Gn 1:28). O trabalho continua sendo uma bênção, só que agora com os efeitos do pecado corrompendo-o e trazendo canseira, enfado e dificuldades. O uso de habilidades para a lavagem de dinheiro do diretor, por parte de Andy, evidencia isso.
Um ponto irônico na história é a questão da blasfêmia, baseado em Êxodo 20:7 (ARA)
“Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”. Horton diz que não tolera blasfêmia em seu presídio, mas sua profunda hipocrisia e postura ética contrastam bruscamente com esse zelo. Não tomar o nome de Deus em vão não se limita a não utilizar seu nome banalmente, abrangendo o uso dele de maneira interesseira, isto é, usando seu nome e caráter para transmitir uma confiança às pessoas por puro interesse pessoal.
Alguns elementos na trama correspondem ao anseio do coração humano por liberdade, e a sua necessidade por manter alguma esperança. Essa liberdade só pode ser verdadeiramente encontrada na comunhão com o Deus Triúno, na esperança firme e não vaga na obra de nosso Redentor, o Senhor Jesus Cristo.
De uma maneira interessante, pode-se correlacionar o arrependimento do cristianismo a duas situações que parecem indicar algo similar na vida de Andy e Red. A fuga e libertação de Andy acontecem após seu reconhecimento de culpa pelo fracasso de seu casamento. Red é liberado depois que desiste de querer provar sua reabilitação e simplesmente afirma seu arrependimento e o como não pode mudar as circunstâncias. São apenas semelhanças da obra que ocorre em cada pecador que é salvo.
Deus criou o homem para ter um relacionamento com Ele, participar de uma comunhão plena e glorificá-lo. A queda representou a nossa prisão: como prisioneiros do pecado, mortos e cegos espiritualmente, nossa prisão é mais profunda que Shawshank. A redenção em Cristo é a verdadeira libertação, e o alvo do cristão agora é seu futuro no destino final, o céu da presença de seu Senhor, algo infinitamente e incomparavelmente maior que uma praia paradisíaca deste mundo.