Um diálogo entre a Literatura e a Teologia
Por: Lucas Gonçalves | Prompte et SincerePor sua vez, Francis Schaeffer foi um importantíssimo crítico cultural do século passado. Em muitos de seus escritos, somos expostos à uma sistematização do que é a arte, bem como aprendemos sobre o seu papel fundamental e como convém interagir com ela, numa perspectiva essencialmente cristã. Creio que a raiz do pensamento desses dois autores possuem um núcleo comum e que, além disso, ambos podem nos oferecer importantes ferramentas para a nossa relação com as variadas expressões artísticas.
A NATUREZA CRIATIVA DA HUMANIDADE
Schaeffer nos mostra que o valor que atribuímos à arte deriva de um atributo compartilhado entre o Criador e a humanidade criada, “uma obra de arte é uma obra de criatividade, e a criatividade tem valor porque Deus é o criador”. (2010, p. 45). Assim, a arte não precisa encontrar sua razão de ser em qualquer outra coisa além do simples fato de ser valorizada pelo próprio Deus. Todavia, uma vez que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de um Deus criador, ele “[…] pode não apenas amar, pensar e sentir emoções — ele tem também a capacidade de criar”. (2010, p.45). A nossa habilidade artística, portanto, deriva da natureza criadora de Deus presente em nós.
A nossa inclinação por consumir arte se deve ao fato de que Deus é criativo e faz as maiores e mais belas obras de toda a existência. Todavia, pelo fato de nossa natureza ser derivada, guardadas as devidas proporções, deste mesmo Deus criador, também somos inclinados à criatividade. Por conta disso, Schaeffer (2010) afirma que nunca veríamos um não-humano produzindo arte e, igualmente, jamais veríamos um ser humano não criando nada em momento algum. Produzir e consumir arte fazem parte de nossa natureza intrínseca.
J.R.R. Tolkien, por sua vez, caminhou pela mesma trilha. Em inúmeras cartas, mas especialmente sistematizado em Sobre Contos de Fadas, o professor argumenta que o ser humano é um ser subcriador justamente por sua capacidade, derivada de seu Criador, de criar coisas a partir de algo pré-existente.
Para a correta compreensão de sua ideia, é importante nos atentarmos ao termo “subcriador”. Tolkien era um acadêmico cristão, logo, seu pensamento era alicerçado primordialmente em doutrinas bíblicas. Uma vez que Deus é o Criador, segundo as Escrituras, que fez toda a existência a partir do nada, o ser humano só poderia ser um subcriador, isto é, alguém que rearranja as realidades existentes do Mundo Primário num mundo artístico Secundário. Ele é um subcriador, portanto, por possuir atributos semelhantes ao seu criador e por depender direta e indiretamente deste.
Para tornar tal ideia mais palpável, segue-se um exemplo: enquanto no Mundo Primário existe uma flor branca plantada num gramado verde, no Mundo Secundário, subcriado por um artista, pode muito bem, sem problema algum, existir uma flor verde num gramado branco. Assim, a humanidade é subcriativa porque ela dá vazão ao seu impulso criativo, herdado de seu Criador, a partir de elementos previamente criados, que são reorganizados segundo a imaginação do ser humano. Nas palavras do professor: “O que acontece de fato é que o criador da história mostra ser um ‘subcriador’ de sucesso. Ele faz um Mundo Secundário no qual nossa mente pode entrar”. (2013, p. 36).
Isso se dá principalmente pelas combinações infinitas de substantivos e adjetivos, conforme demonstrado no exemplo anterior da flor branca e da grama verde. Naturalmente, o foco do professor Tolkien era a arte literária — sendo ainda mais pontual, a literatura fantástica. Todavia, o princípio é facilmente estendido para as demais expressões artísticas, pois o escritor, o escultor, o pintor, o cineasta e demais artistas também rearranjam o Mundo Primário em um ambiente Secundário. Não apenas estes artistas, mas também todos os artesãos, arquitetos, engenheiros, cientistas… todos os que criam e participam da manutenção das coisas criadas, isto é, todos os que cumprem o mandato cultural, o fazem a partir de uma reorganização do mundo pré-existente, trazendo à superfície todo o tipo de existência em potência.
E nisso, nos deparamos com um conceito bastante importante no pensamento de Tolkien. Para ele, havia uma grande distinção entre o poder artístico e o poder mecanicista. Enquanto este tinha como meta a deificação do agente ativo, aquele tinha como foco a participação do desenvolvimento natural do mundo, bem como o prazer intrínseco na capacidade criativa e estética de se fazer coisas belas, que transformariam o mundo em um lar. Em carta, ele escreveu:
Com a última [a máquina] tenho em mente o uso de planos ou artifícios (aparelhos) externos ao invés do desenvolvimento dos poderes ou talentos interiores inerentes — ou mesmo do uso desses talentos com o motivo corrupto da dominação: intimidar o mundo real ou coagir outras vontades. (2006, p. 142)
Convém também fazer uma pequena diferenciação entre Arte e Subcriação, segundo nos propõe J.R.R. Tolkien. Em Sobre Contos de Fadas, Tolkien sistematiza a relação de ambas nos mostrando que a nossa imaginação nos capacita a rearranjar a realidade em um Mundo Secundário, conforme já dito neste texto. Porém, é função da arte dar a esta imaginação coerência, a ponto de que esta venha a ser uma verdadeira subcriação.
Expandindo a ideia, seria função da arte, no pensamento tolkieniano, transformar a ideia de uma cadeira numa cadeira coerente, que funcione em todos os seus atributos e desempenho (novamente, preciso ser honesto e lembrar que parte do que estou expondo é uma sugestão de desdobramento do pensamento de Tolkien, que por sua vez é intimamente restrito à literatura fantástica, para as demais áreas criativas).
Esta ideia de subcriação, ainda que não apareça com a mesma nomeclatura, também se faz presente em Schaeffer, como se lê: “Deus, por ser infinito, pode criar as coisas a partir do nada, por meio de sua palavra falada. Nós, por sermos finitos, conseguimos criar somente a partir de algo previamente criado”. (2010, p. 46). Para Schaeffer o ato artístico é, portanto, um ato criativo, de fazer algo novo a partir do que anteriormente já existia.
Novamente, voltando ao exemplo da cadeira, o pensamento de Schaeffer torna-se bastante acessível: Deus criou a árvore do nada, segundo o relato bíblico. A humanidade, por sua vez, a partir da madeira criada, imaginou e, usando o termo de Tolkien, subcriou uma cadeira, desenvolvendo os potenciais da criação divina.
ARTE E COSMOVISÃO
Com estas questões assentadas, uma importante consideração precisa ser feita. Uma vez que a arte se dá pelo rearranjo, por parte do artista, de elementos primários num Mundo Secundário, fica claro que o filtro dessa subcriação é o próprio artista. Deste modo, o que ele escolhe representar em sua subcriação, e o modo de assim o fazer, revelam parte de sua própria visão de mundo. A arte por si só não é uma ferramenta filosófica de manifestação de proposições; todavia, ela está carregada de pensamentos e valores que refletem o seu artista e a sociedade que o cerca.
Este espelhar artístico individual e comunitário fica bem exposto em A arte e a Bíblia. Schaeffer argumenta que, ainda que não fôssemos excepcionais críticos de arte, perceberíamos claramente a distinção entre um quadro renascentista de outro moderno, e isso nos mostraria que a arte varia no tempo. De igual modo, não seria desafiador percebermos as diferenças entre uma pintura italiana de uma japonesa, ainda que ambos fossem produzidos por volta da mesma época, e isso nos mostraria que a arte também varia no espaço.
“Com o passar do tempo, haverá mudanças não somente nas formas de arte e na linguagem, mas também nas formas de arte provenientes de vários lugares e culturas”. (SCHAEFFER, 2010, p. 62). A mudança não é simplesmente de um ano para o outro, ou de uma região para a outra, mas sim de culturas, de grupos sociais. A arte é dinâmica, portanto, por que os filtros de seu operador é regido pelas realidades imediatas que o abraçam em seu tempo e em seu local.
O professor Tolkien afirmou a mesma ideia. Ainda que ele tenha se expressado, vez após vez, contra as alegorias, Tolkien reconheceu ser impossível criar uma obra de arte que não refletisse a imaginação e os valores do próprio artista: “narrativas longas não podem ser criadas do nada; e não se pode rearranjar a questão primária em padrões secundários sem indicar sentimentos e opiniões sobre determinado material”. (2006, p. 284). Em outro momento, o mesmo afirma claramente: “Dessa maneira, alguma coisa das próprias reflexões e ‘valores’ do contador inevitavelmente será inserida [na história]”. (2006, p. 224).
Colocando de outra forma, a cosmovisão da sociedade que cerca o artista é responsável por influenciá-lo e, por sua vez, essa mesma sociedade se identifica com a obra artística criada. Evidentemente, há uma cosmovisão expressa em cada obra artística, ainda que isso não seja feito de forma proposital. É por isso que “todas as artes são como espelhos em que o homem conhece e reconhece algo de si mesmo que ele não sabia”. (CHARTIER, 1931, p.87)
Trazendo para um contexto prático, não deveríamos estranhar a semelhança entre o som dos trens e as batidas dos violões de Jhonny Cash e Bob Dylan. Tampouco nos espantaria, portanto, a semelhança das metralhadoras e/ou sons de fábricas com as guitarras e baterias do rock. Igualmente, podemos ver uma nítida correlação entre o nosso período histórico, marcado pela incerteza e desconfiança, e a crescente produção de narrativas distópicas. Estes apenas para citar apenas alguns, de infindáveis, exemplos, que poderiam abranger sem desafio algum também a arquitetura, a linguagem, a moda e tantos outros.
INTERAÇÃO CRISTÃ COM A ARTE
Tanto Tolkien quanto Schaeffer defenderam que a arte deve ser consumida simplesmente por ser arte; simplesmente por que ela provém de Deus e a nossa natureza, derivada da do Criador, nos inclina a tal. Entretanto, uma vez que todas as formas artísticas, ainda que não propositalmente, são carregadas de uma cosmovisão, como deveríamos interagir com a mesma? Em Sobre Contos de Fadas, Tolkien defende que devemos consumir a boa arte. Seu critério principal é a questão da coerência interna. Isto é, quão bem feita é a obra a ponto de suscitar em mim uma crença secundária, uma crença consciente de que, segundo as leis internas daquela obra, aquela construção é coerente?
Por sua vez, Schaeffer nos traz parâmetros bastante parecidos, porém mais claros e delimitados, visto que ele se propôs abertamente a tal exercício. O pensador nos oferece quatro tópicos a serem considerados ao se analisar uma obra artística:
- Excelência técnica: quão bem feita, dentro do que se propôs o artista e dentro do que sua tradição valoriza, a obra foi realizada?
- Validade: quão sincero com seu próprio pensamento o artista foi?
- Conteúdo: qual a mensagem que aquela obra de arte comunica?
- Integração entre o conteúdo e o veículo: a mensagem é adequada àquela expressão artística?
De certa forma, podemos perceber similaridades entre as propostas de interação com a arte de Tolkien e Schaeffer. Enquanto Tolkien de forma genérica cobra simplesmente uma coerência no respeito às leis internas da obra subcriada, Schaeffer compartimenta essa coerência em quatro aspectos específicos. Naturalmente, não podemos dizer que ambas as propostas são idênticas, mas isto se deve principalmente aos diferentes fins que cada um dos autores almejavam. Tolkien estava pensando sobre a origem e a função da literatura fantástica e dos mitos, enquanto Schaeffer pensava sobre a arte de forma geral.
Por fim, convém nos lembrar da doutrina da Graça Comum. Segundo ela, a corrupção humana é refreada e suas virtudes promovidas, de forma que, apesar dos efeitos da Queda, o ser humano pode, mesmo que inconscientemente, proferir mensagens aderentes ao ensino bíblico. Portanto, não faz parte de uma análise cristã considerar a profissão de fé do artista; mas sim, no terceiro nível de análise proposto por Schaeffer, discernir quão aderente à cosmovisão bíblica ou quão idólatra é o seu conteúdo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Recapitulando, fica evidente que o ensejo artístico, isto é, a nossa disposição de produzir e de consumir arte (seja ela especificamente em questões estéticas, seja ela abrangentemente o hábito humano de criar coisas e de manter essas coisas criadas) se sustenta na natureza criativa de Deus, comunicada à humanidade, que foi feita segundo a imagem e semelhança do Criador.
De igual modo, fica claro que o ser humano produz as suas subcriações a partir de sua cosmovisão, que é influenciada pela sociedade que o cerca. Por isso as expressões artísticas variam de lugar para lugar, assim como de tempo para tempo. Desta forma, o cristão deve desfrutar das obras artísticas, mas deve fazê-lo de forma consciente, a analisando com critérios objetivos, buscando uma coerência interna e externa na obra, segundo os parâmetros da cosmovisão bíblica. Termino meu texto com uma última citação de Francis Schaeffer:
Alguns artistas podem não saber que estão conscientemente comunicando uma cosmovisão. Mesmo os trabalhos concebidos sob o princípio da arte pela arte geralmente expressam uma cosmovisão. Mesmo a cosmovisão que diz que não existir significado transmite uma mensagem. Seja como for, esteja o artista consciente da cosmovisão ou não, se ela estiver presente, deve ser submetida ao julgamento da Palavra de Deus. (2010, p. 56).
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REFERÊNCIAS:
SCHAEFFER, Francis A. A Arte e a Bíblia. Viçosa: Ultimato, 2010.
TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
__. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Org. H Carpenter. Curitiba: Arte e Letra, 2006.
Lucas Gonçalves é bacharel em Comunicação Social e em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduando em Plantação e Revitalização de Igrejas pela FATEV-CTPI. Estuda a ética e a moral cristãs em C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien, e é colaborador na Igreja Presbiteriana Vinhedo. Ele também é autor do Blog Teoreferente, cuja proposta é pensar sobre assuntos diversos, mostrando como tudo se refere a Deus e encontra seu sentido pleno nele.