Por: Raphael Rocha Quintão | Prompte et Sincere

   O gênero narrativo nas Escrituras é composto principalmente por livros do Antigo Testamento (AT), que não apenas contam a ação de Deus sobre o seu povo, mas também a trajetória do povo de Israel ao longo da história, através de narrativas. Esses relatos demonstram como Deus atuou na história, mesmo que aqueles que viveram esses momentos nem sempre estivessem cientes disso. Deus está sempre ativo, pois não é indiferente à sua criação e rege todas as coisas para o Seu bom propósito.

   Os chamados Livros Históricos narram sequencialmente os fatos dos períodos analisados, transmitindo uma mensagem teológica por meio de suas narrativas. Esta mensagem, em outras palavras, é a comunicação de Deus através da narração de eventos específicos. Uma maneira de os leitores entenderem corretamente os objetivos do autor é observar a quem a narrativa “favorece”, isto é, quem está sendo beneficiado por Deus no contexto da história. Frequentemente, o próprio autor nos mostra explicitamente se Deus estava julgando ou abençoando seu povo e outros ao redor.

   Livros como Rute e Ester ilustram como Deus favoreceu seu povo através de eventos aparentemente simples ou de circunstâncias “sortudas”. Por exemplo, Deus puniu seu povo com a fome, o que levou Noemi a deixar sua terra com sua família. No entanto, isso se transformou em graça: da terra de Moabe veio Rute, esposa de Boaz e ancestral de Davi, de quem veio Cristo. Em uma situação similar, Ester encontrava-se em terras estrangeiras por causa do juízo de Deus sobre Judá. Naamã, descendente dos amonitas não erradicados por Israel, tramou seu plano e o executou, refletindo outro juízo de Deus. No entanto, através da beleza incomparável de Ester, ela ganhou acesso ao rei e intercedeu pelo seu povo, convertendo uma maldição em bênção.

   Portanto, as narrativas evidenciam o caráter de Deus através dos relatos históricos, mesmo que nem sempre declarem explicitamente que foi Deus quem orquestrou os eventos, como no caso do livro de Ester. O leitor deve estar atento à maneira como Deus age na história, que, na maior parte das vezes nas Escrituras, é de maneira ordinária, através dos pecadores. Deus também realizou feitos extraordinários, como o dia mais longo da história em Josué, e o narrador observa esse fato histórico, destacando que, assim como Deus ajudou de maneira extraordinária nesse dia, Ele também age ordinariamente através das vitórias e derrotas dos exércitos de Israel. (ARNOLD; BEYER, 2015).

   Os autores, inspirados pelo Espírito Santo, sempre têm objetivos em suas narrativas; eles não são “neutros”, como ninguém o é (SIRE, 2009). O Espírito utilizou suas habilidades narrativas para revelar a ação divina em tudo o que acontece. É por isso que Crônicas e Reis são um belo exemplo da inspiração das Escrituras, com dois (ou mais) autores sendo usados por Deus para contar uma história que se entrecruza na maior parte dos livros, mas sob pontos de vista diferentes (DILLARD; LONGMAN III, 2006). Os Livros Históricos, assim como toda a Escritura, são uma fonte inesgotável de teologia para a igreja, apresentando características específicas bem conhecidas pelos bons leitores e exegetas. O grande problema surge ao passar para a leitura do livro de Atos, onde parece que a maioria esquece esses princípios elementares.

   Em primeiro lugar, Atos é a segunda parte de uma mesma obra, iniciada com o Evangelho de Lucas, no qual o autor aponta ter feito uma cuidadosa investigação dos eventos para escrever um relato fiel e histórico dos fatos que ocorreram na vida e ministério de Jesus Cristo. A figura de Teófilo, a quem Lucas dirige tanto o Evangelho quanto o segundo volume, é amplamente debatida pela academia. Seu nome, que pode ser traduzido literalmente como “amigo de Deus”, sugere que o autor poderia estar dedicando o livro a todos os que compartilham dessa amizade com Deus (CHUNG-KIM, 2014). Segundo a tradição, Teófilo seria oriundo da Itália, dado que ele não estava familiarizado com alguns aspectos da cultura palestina, o que obrigou Lucas a detalhar elementos que seriam desnecessários para leitores imersos na cultura de Israel (EXELL, 1997).

   Apesar de o debate sobre a origem e identidade de Teófilo ser interessante e produtivo, parece que as informações a seu respeito simplesmente não foram registradas por Lucas porque esse não era seu objetivo principal. Conforme expresso em Lucas 1:4, o propósito era “que você tenha plena certeza das verdades em que foi instruído”. Assim, Lucas escreve o Evangelho e o livro de Atos com o intuito de fornecer aos crentes em Jesus e no Evangelho uma base histórica sólida para sua fé. Isso se mostrava fundamental, especialmente considerando que os cristãos da igreja primitiva, até o quarto século, enfrentaram diversas formas de perseguição (THIELMAN, 2007, p. 136). Eles necessitavam de algo concreto que reafirmasse a veracidade da mensagem dos apóstolos, e não meros devaneios.

   Qual seria o motivo que levaria alguém a defender uma ideia até as últimas consequências, inclusive a morte? Certamente, uma ideia fortemente enraizada na realidade, valiosa e firmada em fatos verdadeiros. Os cristãos, incluindo todos os apóstolos com exceção de João, que morreram de maneiras terríveis, defendiam que os eventos descritos eram reais e que seus registros eram fiéis (GILBERT, 2016). A mensagem da Salvação tinha, portanto, uma fundamentação histórica sólida; caso contrário, ninguém estaria disposto a morrer por uma mentira, seja no contexto atual ou no mundo da Antiguidade.

   Dessa forma, Lucas compôs dois volumes para assegurar aos cristãos a autenticidade dos eventos narrados. Sua escrita, baseada em investigação minuciosa, visava garantir que a igreja compreendesse que os apóstolos não estavam morrendo por um embuste. As palavras de vida eterna que eles pregavam eram baseadas na realidade de que Jesus Cristo, longe de ser apenas uma ideia ou uma figura etérea, era uma pessoa real que viveu na Palestina do primeiro século e realizou muitos atos, dos quais Lucas selecionou alguns para sua obra. Portanto, os objetivos do autor, assim como seus métodos de escrita, o vocabulário empregado e o entrelaçamento entre os eventos desde o início do Evangelho até o final de Atos, devem ser percebidos como elementos de uma única obra, onde o Evangelho plantou a semente e Atos mostrou sua frutificação e expansão.

   Em segundo lugar, as narrativas bíblicas, como já mencionado, não são meramente relatos do que aconteceu em um determinado tempo, mas também demonstram a ação de Deus na história. Deus interfere em tudo, até nos mínimos detalhes, como contar cada fio de cabelo (Lc 12:7). No entanto, nem todos os eventos da história são registrados. Isso significa que qualquer registro histórico, seja o de Lucas ou de qualquer outro autor, é seletivo no que relata. Não é possível documentar tudo, nem mesmo todas as ações do Salvador, pois, como mencionado em João 21:25, não haveria papel suficiente para tal. Por isso, cada narrativa bíblica é seletiva nos fatos que escolhe registrar, tanto no Antigo Testamento quanto em Atos.

   Deus é tão poderoso que sua influência vai desde uma simples figueira até o mais alto governante do Império Romano. Todos estão sob seu domínio. Assim como foi propósito de Lucas registrar o ensino de Jesus sobre a figueira (Lc 13:6-9), também lhe coube fazer onze registros históricos para situar temporalmente o ministério de João Batista (Lc 3:1). Lucas tem como objetivo demonstrar aos crentes que tudo o que aconteceu com Cristo foi real, registrando todas essas referências temporais, mas também o que Jesus disse sobre a figueira. Os relatos de Lucas foram cuidadosamente selecionados para atender a seus propósitos, principalmente para mostrar que os eventos narrados em seu segundo volume representam o clímax dos atos redentivos de Deus na história.

   O livro de Atos segue essa narrativa, mostrando a progressão geográfica da expansão do Evangelho, partindo de Jerusalém até alcançar as extremidades do mundo conhecido (Bíblia de Estudo de Genebra, 2009, p. 1418). O evento da crucificação de Cristo pelo Império Romano não afetou apenas os cerca de 120 discípulos mencionados ao final do primeiro volume de Lucas, mas a remissão dos pecados se estende a todos que nele creem, judeus ou gregos. Da mesma forma, a ressurreição não foi um devaneio dos apóstolos, mas um fato histórico que assegura a vida eterna a todos os que creem, ao lado do Salvador em uma criação redimida.

   O propósito de Lucas é mostrar que os crentes são capacitados pelo poder do Espírito Santo para testemunhar a Cristo em todos os lugares, independentemente de onde estejam, seja na Judeia, Samaria ou até os confins da terra. Portanto, Atos deve ser lido como uma narrativa que ilustra essa expansão, esse alcance global do Evangelho. Os registros de Lucas evidenciam as ações de Deus em favor de sua igreja para cumprir a missão redentiva entre os gentios. Lucas seleciona seus relatos visando esses objetivos principais: demonstrar o ápice da revelação redentiva de Deus e a expansão da boa notícia da salvação a todos os povos. Porém, como observado, esse foi um período muito particular da história.

   Em terceiro lugar, Atos desempenha um papel fundacional na história da Igreja, marcado por eventos especiais com propósitos específicos. Essa importância é evidenciada em muitas passagens do livro, mas destaca-se em duas ocasiões. A primeira é o derramamento do Espírito Santo, relatado em Atos 2 durante a festa de Pentecostes em Jerusalém, aproximadamente 50 dias após a crucificação de Jesus na Páscoa. Esse evento não só cumpriu a promessa do envio do Consolador, como também capacitou os discípulos a serem testemunhas de Cristo em todo o mundo. O Pentecostes marcou o início de uma nova era para a Igreja, caracterizada pela expansão do Evangelho além das barreiras étnicas — barreiras essas impostas não por Deus, mas por Israel.

   Como todo evento que inaugura uma nova fase, o Pentecostes foi singular e excepcional, servindo a um propósito específico naquele contexto histórico: estabelecer a Igreja e expandi-la globalmente. Da mesma forma, os milagres relatados por Lucas naquele período foram únicos, demonstrando o poder de Deus na proclamação do Evangelho da salvação (MARSHALL, 1982, p. 24). Essas manifestações extraordinárias do poder do Evangelho estabeleceram o testemunho de Cristo e dos apóstolos como fundamento da Igreja.

   A severidade da disciplina eclesiástica também é ilustrada pelo incidente com Ananias e Safira, mostrando que tal disciplina é levada a sério por Deus e, consequentemente, deve ser pelos líderes eclesiásticos. No entanto, considerando a excepcionalidade daqueles tempos e o propósito divino de restabelecer seu testemunho, não podemos esperar que hoje alguém seja morto de forma extraordinária como resultado de uma disciplina eclesiástica. Os dons espirituais foram extraordinários naquele tempo para cumprir o propósito redentivo de Deus e estabelecer sua Igreja sobre toda a terra.

   Hoje, não há razão para que esses dons se manifestem da mesma maneira, dado que a Bíblia está completa e a Igreja já foi estabelecida sob a autoridade de Cristo e dos Apóstolos. Portanto, não é apropriado orar ou ansiar por um novo Pentecostes, pois tal evento não se repetirá, uma vez que não há mais necessidade de Deus manifestar seu poder daquela forma específica.

   Não estou admitindo a impossibilidade de Deus agir milagrosamente, mas afirmando a excepcionalidade dos tempos do estabelecimento da autoridade de Cristo e dos apóstolos sobre a terra. O significado do Pentecostes, portanto, é que o papel fundamental da igreja é continuar testemunhando o Evangelho no poder do Espírito Santo a todas as nações e línguas, sem distinção. O poder de Deus que se manifestou nos tempos dos apóstolos garantiu que a Palavra de Deus avançasse apesar da oposição. Era e continua sendo Deus quem promove sua salvação, utilizando os seres humanos como instrumentos para esse fim eterno. As perseguições começaram em Jerusalém, mas se espalharam para todos os locais onde a Igreja do Senhor foi estabelecida. Assim, “Lucas deseja informar aos leitores que os propósitos salvíficos divinos serão cumpridos, a despeito de todos os esforços para interrompê-los, sejam eles visíveis ou invisíveis” (THIELMAN, 2007, p. 162).

   Em quarto lugar, o princípio da hermenêutica reformada, que sustenta que a Escritura interpreta a própria Escritura, deve ser aplicado ao livro de Atos. A Escritura, embora escrita por muitos autores, apresenta um enredo consistente que a atravessa por completo. Este princípio é evidente no próprio trabalho de Lucas, que está repleto de citações do Antigo Testamento, especialmente nos sermões que registra. Por exemplo, no sermão proferido logo após o Pentecostes, Pedro emprega as Escrituras para demonstrar que Cristo é o cumprimento de todas as profecias e promessas do Antigo Testamento. Essa revelação foi antecipada por Jesus, que prometeu aos apóstolos que o Espírito Santo os capacitaria a ver Cristo em todas as Escrituras (Lc 24:44-45).

   Os apóstolos claramente entenderam e comunicaram que o conteúdo do Antigo Testamento se refere a Jesus; Ele é a essência e a realização do Antigo Testamento, e sem Ele, nada do que está escrito pode ser plenamente compreendido (GOLDSWORTHY, 2018, p. 51). Os sermões documentados por Lucas ilustram que os apóstolos estabeleceram sua doutrina com base no Antigo Testamento, pois Cristo é o cumprimento de todas as suas promessas, começando já nos primeiros capítulos de Gênesis.

   A narrativa bíblica continua com Deus estabelecendo, no Éden, uma aliança com Adão, mandando que se multiplicasse e enchesse a Terra, expandindo a aliança por toda a Terra. Adão falhou em cumprir essa ordem, escolhendo a maldição. Deus então chama Abraão, estabelecendo um relacionamento que se estenderia à sua descendência. Deus se lembra de sua promessa quando os descendentes de Abraão clamaram a Ele no Egito, libertando-os. No Sinai, o povo recebeu instruções para a construção do Tabernáculo, que simbolizava a presença de Deus entre eles. Israel deveria, assim como Adão, espalhar as bênçãos de Deus por toda a Terra, uma missão que também não conseguiu cumprir plenamente. O Templo veio a ser a continuação do tabernáculo, também simbolizando a presença divina.

   Jesus, ao ‘tabernacular’ entre nós, não apenas simbolizou, mas personificou a presença de Deus, reafirmando a missão de expandir o Reino por toda a Terra. Os Novos Céus e a Nova Terra são o cumprimento final dessa ordem divina, quando o Reino de Deus tiver sido completamente estabelecido. Com isso, a função do antigo templo torna-se obsoleta, pois Deus habita no meio de sua igreja, seja em Jerusalém, Samaria ou nos confins da terra. Onde o Evangelho está, Cristo está presente (BEALE; KIM, 2019, p. 69). O livro de Atos, portanto, destaca o cumprimento do Antigo Testamento em Cristo, e o leitor deve estar atento a todos esses aspectos ao ler.

   A riqueza das Escrituras é verdadeiramente magnífica, com cada livro, capítulo e versículo apontando para Cristo e Sua obra redentora. O livro de Atos destaca-se por mostrar o cumprimento perfeito dessa obra de redenção divina. A igreja, capacitada pelo Espírito Santo, desempenha sua missão de disseminar o Reino de Deus por toda a terra de maneira plena e efetiva. Atos é, essencialmente, uma narrativa teológica, construída com propósitos específicos, onde Lucas seleciona e relata eventos de forma a construir a mensagem pretendida. Assim, os dons espirituais manifestaram-se de maneira extraordinária naquela época para cumprir o propósito redentivo e estabelecer a igreja globalmente.

   Hoje, a manifestação dos dons não se faz necessária da mesma forma, uma vez que a igreja já está estabelecida. A leitura de Atos, portanto, deve ser feita considerando a totalidade da narrativa, reconhecendo os objetivos de Lucas em registrar cada evento e como cada um sustenta sua mensagem teológica. Além disso, Atos, sendo o livro histórico do Novo Testamento, deve ser lido em conjunto com as epístolas para uma interpretação correta e contextualizada.

   Atos não é apenas um registro histórico; é uma narrativa teológica de vital importância, pois marca o início da igreja. Hoje, continuamos a obra iniciada pelos apóstolos e, em breve, Cristo virá para consumar todas as coisas.

 

Referências Bibliográficas

ARNOLD, B. T.; BEYER, B. E. Encountering the Old Testament. 3. ed. Grand Rapids, MI: Baker Academy, 2015.

BEALE, G. K.; KIM, M. Deus mora entre nós: a expansão do Éden aos confins da Terra. 1. ed. São Paulo: Loyola, 2019.

Bíblia de Estudo de Genebra. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

CHUNG-KIM, E. Acts. 1. ed. Downers Grove, IL: IVP Academic, 2014. v. 6

DILLARD, R. B.; LONGMAN III, T. Introdução ao Antigo Testamento. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2006.

EXELL, J. S. The Biblical illustrator (Acts): Or anecdotes, similes, emblems, illustrations; expository, scientific, geographical, historical, and homiletic, gathered from a wide range of home and foreign literature, on the verses of the Bible. 1. ed. SL: Logos Reserch Systems, 1997.

GILBERT, G. Porque confiar na Bíblia? 1. ed. São José dos Campos: Fiel, 2016.

GOLDSWORTHY, G. Introdução à Teologia Bíblica. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2018.

MARSHALL, I. H. Atos: introdução e comentário. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 1982.

SIRE, J. O universo ao lado. 4. ed. São Paulo: Hagnos, 2009.

THIELMAN, F. Teologia do Novo Testamento. 1. ed. São Paulo: Shedd, 2007.

Textos Bíblicos citados: Nova Almeida Atualizada: 2017, Sociedade Bíblica do Brasil

 

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O autor é graduado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (2022) e bacharel em Estudos Bíblicos pela Faculdade Internacional de Teologia Reformada (2022). Atualmente é Mestrando em Divindade por esta mesma instituição e Mestrando na Linha de História e Culturas Políticas do Programa de Pós-graduação em História da UFMG. Diácono na Igreja Presbiteriana do Jardim Canadá, em Nova Lima-MG.

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