Por: Gabriel Araujo Zambon | Prompte et Sincere

Introdução

        A história dos patriarcas, a partir de Gênesis 12, marca um novo ponto na história da redenção. Quem não se lembra da fórmula tão repetida ao longo das Escrituras: o Deus de Abraão, Isaque e Jacó? Isso apenas destaca o quanto esse período foi marcante para os propósitos redentores do Criador que promete e se compromete com esses ancestrais de nossa fé.

        O Deus de vivos, não de mortos, irá continuar a lidar com a ruína do pecado sobre a criação que não deixou de se alastrar mesmo no pós-dilúvio e dispersão dos povos de Babel. Ele agora chama Abraão a sair de sua parentela, da prestigiada cidade de Ur na Mesopotâmia, sob a promessa de uma terra abençoada e uma grande descendência.

        Conforme Arnold e Beyer (2015, p.73) apresentam, há três temas teológicos fundamentais para o restante do pensamento bíblico: a eleição, a promessa e o pacto. A eleição já pode ser vista no propósito de Deus, quando fala para Abraão que faria dele uma grande nação e que nele seriam benditas todas as famílias da terra. A eleição de Deus dos patriarcas se concentra em seus planos para eles como instrumentos da salvação do mundo, preparando o caminho para o Messias de Israel (ARNOLD; BEYER, 2015).

        Sobre o tema da promessa, a terra e a descendência servem como pontos focais, encontrando cumprimento apenas parcial em Abraão. Gênesis termina com a expectativa do cumprimento dessas promessas num contexto remoto e próximo, além de apontar para seu aspecto cristológico, onde quando, por meio da fé, muitas famílias seriam justificadas.

        Por fim, o pacto é o terceiro tema destacado pelos autores citados acima. As promessas e a aliança que Deus estabelece com Abraão são confirmadas em sua descendência, passando por Isaque, Jacó e José. O Pacto Abraâmico torna-se tão importante porque irá ser fundamental para outras alianças ao longo da Bíblia, ressaltando a fé para a justificação e para o desfrutar do relacionamento com o Deus que se revela e se compromete com seu povo.

A instituição e o selo da aliança abraâmica em Gênesis 15 e 17

        O pacto ou aliança de Deus com Abraão ganha um ritual de oficialização marcante no capítulo 15 de Gênesis. Já tendo sobrevivido a fome e a um exílio temporário do Egito, uma disputa com seu sobrinho Ló, e uma guerra regional, parece que as promessas ficaram num horizonte distante. Então, neste capítulo 15, Deus se revela a Abraão numa visão, reafirmando suas promessas. A partir das perguntas do patriarca, há a seguir a descrição do compromisso formal de aliança.

        Palmer Robertson (2011, p. 107) afirma que este capítulo é a “passagem mais significativa na narrativa patriarcal que trata especificamente do conceito de aliança”, consistindo no “estabelecimento formal da aliança abraâmica”. O ritual descrito era um costume dos dias de Abraão, por isso quando Deus ordena que ele traga os animais, parece que “o patriarca não necessitava de instruções adicionais”. (ROBERTSON, 2011, p. 108).

        Paralelos extrabíblicos confirmam esse evento cultural para a celebração de compromissos mútuos, sendo que os animais partidos representariam o resultado da quebra da aliança a quem a descumprisse. A própria expressão literal bíblica de “cortar uma aliança” remete a esta divisão dos animais, além de encontrar base em textos de outros povos ao redor. Dessa forma, há um comprometimento mútuo “para a vida e para a morte”. (ROBERTSON, 2011, p. 109).

        Contudo, o que acontece em Gênesis 15 é diferente do que se esperaria culturalmente. Somente Deus passa por entre as partes, assumindo o cumprimento e responsabilização pelo pacto. Michael Horton esclarece como isso afeta uma associação com um tratado de suserania ou como um de concessão real:

É como se, do lado divino, a aliança feita com Abraão fosse uma tratado de suserania em que Deus jura unilateralmente cumprir pessoalmente todas as condições e sofrer todas as maldições pela sua violação; mas, do lado humano, a mesma aliança é uma concessão real, uma herança concedida livremente e totalmente de graça, com base do desempenho do Grande Rei. (HORTON, 2010, p. 34)

        A “aliança da promessa” é garantida pelo próprio Criador. Diante das dúvidas de Abraão, Ele sela de forma solene um juramento, assegurando que sua palavra será cumprida. No contexto remoto, a descendência do pai da fé iria experimentar a escravidão antes de entrar na terra prometida, com grandes riquezas. No contexto canônico-cristológico, a vinda do Messias abriu caminho para que famílias de toda a terra pudessem agora caminhar rumo à terra prometida celestial, após o término de nossa peregrinação por aqui.

        Derek Kidner (1967, tradução nossa) captura exatamente esses dois contextos, ao comentar o capítulo 15 de Gênesis:

O Novo Testamento considera este capítulo importante em dois aspectos: primeiro, na sua declaração de que Abrão foi justificado pela fé (6), uma frase que está no centro do evangelho de Paulo em Romanos 4 e Gálatas 3; e, em segundo lugar, no seu registro do pacto – pois este, e não o do Sinai, era o pacto fundamental, e falava de graça e não de lei (Gal. 3:17-22). Para honrar esta promessa, Deus tiraria o seu povo do Egito (Êxodo 2:24), e enviaria o seu Filho ao mundo (Lucas 1:72, 73).

        A base do Pacto Abraâmico repousa sobre a promessa de Deus, não em algum sistema meritório de esforço para sua manutenção. Não à toa, o verso 6 diz claramente que Abraão “creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça.” (Gn 15.6). Essa natureza do pacto com o patriarca contrasta com o caráter temporário da aliança do Sinai, que iria dirigir o povo de Deus por um período determinado, mas que não traria o aspecto perpétuo de promessa. O apóstolo Paulo, em Romanos 4.13, evidencia isso: “Não foi por intermédio da lei que a Abraão ou a sua descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo, e sim mediante a justiça da fé.”

        Até mesmo o aspecto sombrio, de trevas cerradas, apontam para os contextos remoto e cristológico, ressoando a oposição e os grandes atos de julgamento da saída do Egito, além do fogo e da fumaça ecoando o Sinai, na santidade de Deus contra o pecado. Mesmo a Nova Aliança teria seu momento inicial de escuridão e terremoto:

O cenário é sombrio em cada detalhe, em parte, sem dúvida, para enfatizar que a aliança deve ser levada a cabo apesar da oposição (11) e por meio de grandes julgamentos (cf. 13, 14). Mas as trevas, a fumaça e o fogo (12, 17), como os do Sinai, proclamam sobretudo o “terror do Senhor”, o impacto da santidade sobre o pecado; cf. Isaías 6:3-5. Mesmo a Nova Aliança seria inaugurada em trevas e terramoto (Mat. 27:45, 51). (KIDNER, 1967, tradução nossa)

        Não apenas esses temas teológicos ressoam nas Escrituras, mas a própria cerimônia permeia o imaginário do Antigo Testamento. Como Robertson (2011, p. 110) argumenta, utilizando-se de uma passagem do período do rei Zedequias, já próximo ao exílio, de forma a demonstrar que aquele rito ainda era relevante culturalmente. A passagem é Jeremias 34.17-20, da qual cito os versos 18 e 19:

Farei aos homens que transgrediram a minha aliança e não cumpriram as palavras da aliança que fizeram perante mim como eles fizeram com o bezerro que dividiram em duas partes, passando eles pelo meio das duas porções; os príncipes de Judá, os príncipes de Jerusalém, os oficiais, os sacerdotes e todo o povo da terra, os quais passaram por meio das porções do bezerro

        O autor ainda defende que na própria aliança mosaica a ideia desse passar por entre os pedaços de animais foi substituído por uma versão mais “compacta”, com a aspersão do sangue sobre o povo, considerando que este aumentava e a logística para tantos animais se tornaria impraticável. As referências a maldições típicas como as do cadáver que seria comido por animais e aves são associadas por Robertson àquele primeiro rito de “cortar uma aliança”, e dessa forma ele quer mostrar que ao longo da história de Israel, havia uma “autoconsciência pactual em toda a nação” (ROBERTSON, 2011, p. 114).

        Ele chega a apontar que até no Novo Testamento haveria menção à cerimônia, na carta aos Hebreus: “Porque, onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador; pois um testamento só é confirmado no caso de mortos; visto que de maneira nenhuma tem força de lei enquanto vive o testador.” (Hebreus 9.16-17). A palavra traduzida como “testamento” deveria ser trocada por “aliança”, segundo ele, pois a passagem estaria fazendo referência ao rito de inauguração da aliança, e não ao sentido de “disposição de última vontade”. Ele frisa que o plural “no caso de mortos” remete a isso, visto que o testamento em si exigiria a morte de uma pessoa apenas, ecoando assim o cenário dos animais despedaçados.

        Contudo, o que normalmente mais chama atenção para a continuidade da aliança abraâmica é o seu selo, tão marcante que ficará associado em essência ao batismo cristão. Gênesis 17, então, refere-se à instituição da circuncisão como o selo oficial da aliança. A prática já era comem entre os povos da época, mas que o a destaca aqui é o significado teológico especial para o povo de Deus.
Robertson (2011, p. 125) enumera alguns pontos acerca desse significado, apontando que a circuncisão “simbolizava a inclusão na comunidade da aliança estabelecida pela iniciativa da graça de Deus”. Ela também indicava a necessidade de purificação, indicando que o homem é pecador e toda a raça está inclusa. E, ao simbolizar uma espécie de limpeza religiosa, “sugere a necessidade da execução do julgamento como um ato essencial à purificação” (ROBERTSON, 2011, p. 126).

        O Senhor Jesus cumpriria em seu sacrifício o que era representado em sombras pelo ritual. Paulo chega a usar a linguagem de circuncisão para o crente no Novo Testamento, mas sendo esta cumprida em Cristo: “Nele, também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo”. (Colossenses 2.11). Horton (2010, p. 114) interpreta essa passagem como se Paulo estivesse chamando a cruz como a circuncisão de Cristo.

        Portanto, somos unidos a Cristo em sua morte, para sermos ressuscitados com Ele. Assim como a circuncisão, o batismo representa nossa aliança, somente possível porque Jesus experimentou o juízo e maldição pactual de Deus em nosso lugar, porque ele foi “cortado da terra dos viventes” para que pudéssemos alcançar as bênçãos da aliança, a justificação, a vida e a comunhão com o Criador.

Considerações Finais

        A aliança abraâmica é tão especial por mostrar que Deus promete e ele assume a responsabilidade total pelo cumprimento de suas promessas. Diante da hesitação de Abrão com promessas tão altas e sublimes, Deus revela e confirma a posse da terra prometida. Mas não apenas isso, ele aponta para o sacrifício de Jesus Cristo, que ofereceu seu corpo e sangue ao sofrer a auto-maldição da aliança. E então, convida-nos a uma nova vida, chamando-nos a tomar e comer de seu corpo e sangue, sangue da aliança derramado por muitos.

        Uma das coisas que mais chamam a atenção no estudo deste pacto é a amplitude de conexão com toda a história da redenção. O quanto o NT cita e usa passagens da vida de Abraão ilustra um pouco disso. O aspecto da promessa dessa aliança se destacou para mim. Um aspecto que fornece tanta estrutura para o próprio relacionamento pactual de Deus com seus filhos. Isso permite grande edificação quando se olha para o casamento por exemplo, cujo fundamento não pode estar nas emoções temporárias, mas no voto, na declaração de permanência e amor futuro.

        A base é a fé, a confiança no que Ele fará e fez, não em nossa performance, não em nosso esforço dentro de um sistema meritório. Como diz Gálatas 3.18: “Porque, se a herança provém de lei, já não decorre de promessa; mas foi pela promessa que Deus a concedeu gratuitamente a Abraão.” A lei nos revela o tamanho do nosso pecado, para que “mediante a fé em Jesus Cristo, fosse a promessa concedida aos que creem.” (Gálata 3.22).

        A fé verdadeira, como dom de Deus, persevera mesmo quando não parece conveniente ou não se pode contemplar um cenário favorável. Abraão recebeu a promessa de uma grande descendência, sendo que ao longo de sua vida poderia ter sido levado a ver a Ló, ou a Eliézer, ou a Ismael, como possíveis herdeiros. Mas a promessa veio pelo meio mais inesperado.

        O estudo desta aliança mostra que o Deus pactual não cria meros rituais religiosos para serem cumpridos de maneira irrefletida. Como Geerhardus Vos, citado em Horton (2010, p. 85) afirma, o relacionamento de aliança é “comunhão renovada, viva, em que o poder da graça está ativo.” É poder participar do relacionamento verdadeiro cuja base está no próprio Deus Triúno, de amor e felicidade eternos.

        É essa confiança e comunhão que nos sustentam em nossa peregrinação na terra, rumo à herança e cumprimento do restante de promessas tão ricas. Como Horton afirma: “A herança que ele alcançou, de acordo com uma aliança da lei, é agora nossa de acordo com uma aliança da promessa. Simplesmente não há melhor fundamento para a confiança e não há fonte mais rica de consolo diário na vida e na morte”. (HORTON, 2010, p. 86).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ARNOLD, Bill T.; BEYER, Bryan E. Encountering the Old Testament: A Christian Survey, 3ª edition. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2015.

HORTON, Michael. O Deus da promessa. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2010.

KIDNER, Derek. Genesis: An Introduction and Commentary. Vol. 1. Tyndale Old Testament Commentaries. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1967.

ROBERTSON, O. Palmer. O Cristo dos Pactos, 2ª edição. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2011.

Share.

Membro da Igreja Presbiteriana do Brasil em Francisco Beltrão, PR, Brasil, 2016-atual.

Leave A Reply