ANTROPOLOGIA PARA MISSIONÁRIOS: BREVÍSSIMA INTRODUÇÃO
David Zekveld Portela1
CARVALHO, Marcelo. Antropologia para missionários: brevíssima introdução. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2022. 110p.
Em Antropologia para missionários, o Rev. Marcelo Carvalho apresenta um argumento convincente para o uso de métodos e observações da antropologia na missiologia, oferecendo um arcabouço para uma comunicação eficaz do Evangelho entre culturas. Baseando-se em sua rica experiência como missionário e acadêmico, Carvalho explora as complexidades da compreensão cultural, fornecendo insights valiosos para qualquer pessoa engajada em cruzar fronteiras culturais para compartilhar o Evangelho.
O texto, de leitura fácil e fluida, comunica ideias complexas de forma simples e compreensível, estabelecendo uma base no campo da antropologia e explorando suas teorias e metodologias principais. Carvalho distingue entre antropologia física e cultural, destacando o foco desta última na cultura e no comportamento humano. Ele também aborda o etnocentrismo intrínseco a todas as culturas, enfatizando a necessidade de uma abordagem humilde a outras culturas, com disposição para entendê-las em seus próprios termos. Em seguida, tece uma crítica à antropologia secular, desafiando sua exclusão de Deus e sua visão da cultura como um produto humano autônomo. Ele propõe uma
1 O autor é missionário transcultural desde 2006, trabalhando em diversos campos (Bangladesh, Brasil, Camboja) em ministérios de educação cristã para filhos de missionários, aconselhamento bíblico, e plantação de igrejas. Bacharel em Filosofia pela Trinity Western University, no Canadá (2006); Mestre em Divindade (M.Div.) na área de Teologia Filosófica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em São Paulo (2024). É o atual Vice-Presidente Discente da Faculdade Internacional de Teologia Reformada (FITRef), e aluno do Mestrado em Missiologia (M.Ms.) nesta instituição. Reside em Phnom Penh, no Camboja.
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‘antropologia missionária’ que utiliza ferramentas e insights antropológicos, permanecendo fundamentada em princípios bíblicos.
Um fator central dessa proposta é o conceito de ‘graça comum’, que permite aos cristãos utilizarem o conhecimento e as percepções de disciplinas seculares como a antropologia. Ele argumenta que, apesar de suas origens seculares, a antropologia pode ser redimida e usada como uma ferramenta valiosa para entender e se envolver com diferentes culturas. A obra então se aprofunda nas bases bíblicas e teológicas da cultura, baseando-se no pensamento de teólogos como John Frame e Henry Van Til, e desenvolvendo a ideia de que a cultura não é um subproduto acidental da existência humana, mas um resultado direto da criação da humanidade no imago Dei e do mandato de Deus para que cultive a terra. Carvalho introduz o termo culturaliedade para descrever esta característica inerente.
Ao explorar o profundo impacto do pecado nas sociedades e culturas humanas, o autor explica que a Queda afetou não apenas o coração humano, mas também a própria estrutura dos relacionamentos humanos e das expressões culturais. Apresenta os conceitos antropológicos de ‘etnocentrismo’ (a tendência de ver a própria cultura como superior) e ‘samaritanismo’ (o ciclo interminável de buscar satisfação em coisas criadas em vez de Deus) para ilustrar as manifestações do pecado nas diversas sociedades. Esses pontos, de acordo com Carvalho, são essenciais para entender a condição humana a partir de uma perspectiva bíblica.
Quase no final do livro, Carvalho entrelaça todas as partes do seu argumento, apresentando uma nova definição de antropologia missionária:
o estudo da cultura humana, vista como produto do mandato cultural divino manchado pelo pecado, com o objetivo de propiciar um ambiente frutífero no qual as relações e convivência com o outro ocorram, para que se alcance um entendimento substancial do seu sistema de crenças e sistema de pensamento, como de sua fonte revelacional, com o propósito de comunicar o Evangelho da graça transformadora de forma compreensível.
Ele destaca a importância de aproveitar as oportunidades abertas pela providência divina para construir relacionamentos, entender a cosmovisão local e usar métodos de comunicação culturalmente apropriados para compartilhar a mensagem de salvação. Utilizando representações visuais, o autor ilustra as diferentes camadas da cultura, desde as expressões culturais visíveis até os níveis mais profundos de valores, crenças, cosmovisão e realidade última, detalhando suas interações e os principais agentes de cada camada, e mostrando quando e como o missionário deve intervir para que sua mensagem tenha o impacto desejado.
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A obra conclui com aplicações de ideias dos missionários Paul Hiebert e Francis Schaeffer, e do apologeta C. S. Lewis. De Hiebert, aproveita sua discussão sobre o “meio excluído”, o espaço que existe entre o treinamento de um evangelista ocidental, e as perguntas e situações que lhe serão impostas por pessoas que veem o mundo de uma cosmovisão completamente diferente. De Schaeffer e Lewis, extrai preciosas considerações sobre a impessoalidade dos sistemas de crenças e a “absoluta personalidade” do cristianismo. Estas percepções reforçam ainda mais a importância de entender a cosmovisão das pessoas que estão sendo alcançadas, incluindo suas crenças sobre o sobrenatural e a natureza da realidade. Carvalho enfatiza que o trabalho missionário eficaz requer não apenas comunicar o Evangelho, mas também entender e respeitar a cultura daqueles que estão sendo evangelizados, para que essa comunicação possa ser compreendida corretamente e tenha uma chance maior de alcançar aqueles corações.
Descriptorem humanitatis
Ao longo do livro, Carvalho emprega vários descritores latinos para capturar a natureza multifacetada da humanidade. Esses descritores, como homo religiosus (homem religioso), homo culturalis (homem cultural) e homo socialis (homem social), destacam as características essenciais dos seres humanos como criados à imagem de Deus. No entanto, o autor também reconhece o impacto da Queda, introduzindo descritores como homo soperbus (homem orgulhoso) e homo paenitere (homem insatisfeito) para descrever a natureza pecaminosa da humanidade.
O objetivo da antropologia missionária, portanto, é ver a transformação do homo peccatoris (homem pecador) em homo peccatoris redempti (homem pecador redimido). Esses descritores, e outros utilizados no livro, quando considerados em conjunto, pintam um quadro abrangente da humanidade. Reconhecem tanto a sua dignidade inerente quanto a sua queda, enfatizando a necessidade de redenção. E destacam a interconexão dos diversos aspectos da existência humana, que não existem independentemente de Deus, e sim justamente como consequência da criação à sua imagem e semelhança: aspecto essencial e inescapável do ser humano e de ser humano.
Relevância para a comunicação transcultural do Evangelho
Uma compreensão básica da antropologia missionária deve ser parte fundamental dos estudos de qualquer seminário, porque à medida que nossas culturas (ocidentais) se tornam mais complexas e cosmopolitas, este conjunto de ferramentas promete ser essencial para a comunicação clara do Evangelho nas diversas subculturas que atualmente compõem a seara da igreja urbana ocidental. A familiarização com estes conceitos leva o leitor a considerar e analisar as suas
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próprias culturas denominacionais e eclesiásticas, no reconhecimento de que o etnocentrismo inescapável pode se expressar em denominacentrismo e até eclesiocentrismo (tratando-se da igreja local). E esta compreensão pode facilitar a plantação de congregações e a pregação do Evangelho a pessoas de diferentes subculturas, intencionalmente abandonando aquilo que pode ser discernido como bagagem cultural da igreja local (ou até da denominação).
Para os leitores envolvidos em missões internacionais, ou se preparando para este fim, o conteúdo do livro é ainda mais importante. Os missionários frequentemente enfrentam o desafio de comunicar o Evangelho a pessoas cujas culturas são muito diferentes das suas. Ao utilizar as ferramentas da antropologia missionária, eles podem obter uma compreensão mais profunda da cultura local, construir relacionamentos e comunicar o Evangelho de uma forma compreensível e significativa, alertados para as oportunidades que Deus providenciará para este propósito.
A “brevíssima introdução” de Carvalho cumpre o que se propõe a fazer: fornece uma sólida apresentação ao tema da antropologia missionária, revelando o seu valor e apontando o caminho para aqueles que desejam se aprofundar mais no assunto. E faz isso de forma resumida, mas abrangente; simples, mas cheia de pensamentos profundos; e teoricamente robusta, porém transbordando com possíveis aplicações em todos os contextos. Trata-se, em última análise, de uma belíssima introdução ao assunto.