O IMPERATIVO CONFESSIONAL

Resenha de Caio Henrique Jardim de Oliveira Rocco

TRUEMAN, Carl. O Imperativo Confessional. Brasília: Editora Monergismo, 2012. 209 p.

Carl Trueman é membro da Igreja Presbiteriana Ortodoxa. Foi professor de Teologia Histórica no Seminário Teológico de Westminster até renunciar seu cargo para se tornar professor de graduação no Grove City College. Escreveu livros como Confissões de um Conservador Liberal, John Owen: Católico Reformado, Homem da Renascença e Lutero e a Vida Cristã.

Em O Imperativo Confessional, Trueman se propõe a expor o erro daqueles que afirmam não ter credo algum, senão a Bíblia. Sua argumentação parte do princípio de que toda pessoa tem um credo, seja ele consciente ou não, público ou particular. O autor tem plena convicção de que documentos confessionais da Igreja são vitais para sua organização e de modo algum contrariam a noção de Sola Scriptura, uma vez que as Escrituras Sagradas são a fonte dos conceitos contidos nas confissões e nos credos.

O prefácio, escrito pelo pastor presbiteriano Rev. Emílio Garofalo Neto, expõe as intenções de Trueman ao escrever essa obra. O autor tem como objetivo explicar por que a Igreja precisa de declarações sobre Deus. Seu propósito é responder às críticas ao confessionalismo e expor a utilidade de documentos eclesiásticos. Em suma, o autor procura mostrar que os credos e confissões não são “camisas de força”, mas sim trilhos que conduzem a Igreja na tarefa apologética, missiológica e doxológica.

A introdução leva ao entendimento da linha de raciocínio seguida pelo autor. Ele parte do princípio de que os credos e confissões têm caráter vital para o bem-estar da Igreja. O autor, aqui, distingue entre confessores públicos e os que subscrevem a credos particulares, isto é, não registrados. Essa distinção evidencia o engano dos que creem que a subscrição confessional contraria a defesa da Sola Scriptura, mostrando que esse princípio não pode significar Escritura no vácuo, porque ninguém lê a Escritura no vácuo, mas todos carregam uma série de conceitos, pressupostos e vocabulário herdados da tradição cristã.

O primeiro capítulo consiste em uma exaustiva exposição de alguns fatores que influenciam aqueles que dizem não adotar credo algum além da Bíblia. Antes de expô-los, o autor estabelece três pressupostos básicos para a defesa das confissões: primeiro, o passado é importante e tem assuntos de relevância para ensinar; segundo, a linguagem é um veículo adequado para a transmissão da verdade através do tempo e espaço; terceiro, deve haver um corpo organizado que redija e aplique com autoridade os credos e confissões. Trueman, então, mostra que a sociedade moderna dá passos cada vez mais distantes desses princípios, adotando tendências que buscam, por exemplo, desvalorizar o passado (como o cientificismo positivista), esvaziar a autoridade das palavras (que seriam, segundo alguns modernos, meios de segregação) e, por fim, rejeitar qualquer tipo de autoridade. Segundo Trueman, essas tendências são parte de uma visão ímpia e não podem ser seguidas por um cristão. O pastor que pensa ser bíblico ao declarar que não tem um credo está seguindo tendências do mundo moderno, ao invés de ater-se ao princípio da Sola Scriptura, como pensa.

O segundo capítulo trata da base bíblica para o uso de documentos confessionais. O autor, aqui, expõe a importância da linguagem na revelação de Deus. Desde a criação, a palavra tem um caráter poderoso, e isso é reafirmado na manutenção dos relacionamentos pactuais de Deus. Além de ser o meio divino de se comunicar com o homem, a linguagem também é o meio humano para responder a Deus e comunicar aos outros a respeito d’Ele. Prosseguindo em sua argumentação, Trueman mostra como o Novo Testamento, especialmente Paulo, enfatiza a importância de uma organização eclesiástica com autoridade ministerial baseada nos bispos. Esses bispos devem ensinar a doutrina e refutar heresias, e, para isso, é necessário um “modelo de sãs palavras” (cf. 2 Timóteo 3.13). Assim, a Palavra de Deus é transmitida em sua integridade e o erro é combatido.

O terceiro capítulo é um esboço histórico do desenvolvimento da Igreja e, consequentemente, da doutrina. Esse capítulo mostra a mudança na liderança e na estrutura da Igreja com a morte dos apóstolos, o que gerou a necessidade da transmissão do conteúdo da fé apostólica contra heresias nascentes, como o docetismo. As regras de fé começam a surgir nesse contexto, consistindo em declarações resumidas dos conceitos da Escritura. Por outro lado, outros credos surgiram a partir de formulações conciliares. A Igreja, reunida em concílio para resolver os problemas que apareciam em seu seio, sentiu-se na necessidade de estabelecer termos que expressem a doutrina cristã. Isso pode ser visto no Concílio de Niceia (325), que estabeleceu que Cristo é “da mesma substância” do Pai. Conforme as doutrinas se desenvolviam, os concílios aperfeiçoaram o vocabulário e a doutrina por meio de um exercício cumulativo. O Concílio da Calcedônia (451), por sua vez, deve ser destacado não por ter estabelecido uma doutrina positivamente, mas sim por estabelecer limites que não devem ser passados no que se refere à doutrina de Cristo. Em suma, o capítulo esboça a importância do desenvolvimento doutrinário a partir da autoridade da Igreja, e isso a partir das regras de fé e formulações com vocabulários específicos.

O quarto capítulo trata das principais confissões protestantes clássicas. Elas surgem em meio à necessidade de identificação das igrejas e também à definição da religião de determinado território. No contexto anglicano, os principais elementos confessionais são os Artigos da Religião, o Livro de Oração Comum e o Livro de Homilias. A reforma luterana, por sua vez, produziu os documentos contidos no Livro da Concórdia. Esse livro contém escritos feitos principalmente por Martinho Lutero e por Felipe Melanchton. Já a reforma calvinista tem duas grandes manifestações confessionais, a saber, as Três Formas de Unidade e os Símbolos de Fé de Westminster. A primeira consiste na Confissão Belga, no Catecismo de Heidelberg e nos Cânones de Dort. Já os símbolos de Westminster foram escritos no contexto da guerra entre a coroa inglesa e o parlamento. Este, triunfante, convoca uma assembleia de teólogos e pastores para revisar a teologia da Igreja oficial, formulando diversos documentos como a Confissão de Fé e seus dois Catecismos. Os batistas, posteriormente, fazem revisões da Confissão de Fé de Westminster segundo suas doutrinas para adotá-la como documento confessional. O propósito de Trueman em esboçar esse leque de documentos é mostrar que, apesar das discordâncias, esses materiais confessionais mantêm a estrutura trinitária e cristológica estabelecida pela Igreja. Por fim, Trueman mostra que o confessionalismo não está confinado a uma confissão específica, mas ressalta que é importante estar ligado a uma Igreja que adota publicamente alguma confissão.

O quinto capítulo expõe a dimensão doxológica dos documentos confessionais. O autor expõe passagens bíblicas que mostram a importância da declaração pública de que Jesus é o Senhor. Nessa declaração há tanto o aspecto de louvor como o compromisso doutrinário. O argumento do autor é que não há oposição entre doutrina e doxologia, mas a expressão de louvor se baseia em uma expressão de teologia. Outro aspecto destacado por Trueman é que a adoração deve ser trinitária, e os credos lembram disso. A seguir, Trueman se propõe a refutar os que dizem que a recitação de credos leva a mero formalismo. Seu argumento baseia-se, em primeiro lugar, no fato de que a própria Bíblia prescreve orações e liturgias prontas. Em segundo lugar, o autor argumenta que não há base bíblica para a ideia de espontaneidade do culto, mas parece tomar um caminho contrário a ele, como Paulo expõe em 1 Coríntios. Por fim, o autor defende que o formalismo pode também se manifestar em hinos ou cânticos, porque a verdadeira culpa do formalismo não reside nos documentos em si, mas sim nas pessoas. Desse modo, a doxologia confessional deve ser reafirmada porque, por meio dela, as alegações contra a supremacia de Deus são negadas, os membros lembram uns aos outros da identidade de Deus, e o louvor é entregue ao único que o merece.

O sexto capítulo tem como objetivo mostrar a utilidade dos credos e confissões. O autor parte do pressuposto já esboçado de que todas as igrejas têm credos e confissões, mas adotar uma confissão pública ajuda a oferecer uma síntese dos ensinos da Bíblia. Ao adotar um credo público, a Igreja transmite o Evangelho de forma estável e transparente, sendo um meio de ensino dos membros. Além disso, as confissões também delimitam o poder da Igreja, evitando o despotismo dos líderes. Os credos e confissões também refletem a autoridade ministerial da Igreja, uma vez que são documentos de igrejas corporativas. Assim, os membros da Igreja são levados a terem respeito para com a autoridade da Igreja e para com os credos. Por outro lado, os símbolos de fé também relativizam o presente, mostrando que a Igreja está imune às tendências deste século. Por fim, a conclusão do autor é que o uso de credos e confissões pode não ser a única maneira de alcançar o bem-estar da Igreja, mas essa tem sido a escolha da maioria dos cristãos na história.

O apêndice tem como proposta tratar da revisão e complementação das confissões. O argumento do autor parte do princípio de que, por serem documentos eclesiásticos, confissões só podem ser revisadas pelos bispos da Igreja. Para isso, algumas precauções devem ser tomadas. Em primeiro lugar, confissões só podem ser revisadas se estiverem nitidamente erradas; segundo, a Igreja deve estar ciente de que a revisão pode gerar divisões; terceiro, a Igreja deve estar ciente de que sua perspectiva é limitada. De modo geral, as revisões devem ser feitas de forma solene, sábia e séria, não apenas buscando modificações estilísticas.

Em suma, o argumento do autor gira em torno do fato de que todos os cristãos têm um credo, apesar de alguns não o expressarem publicamente. Trueman demonstra no livro os imperativos paulinos para o apego aos modelos de sãs palavras e como isso levou a Igreja em direção ao zelo por documentos confessionais. O autor propõe que a teologia cristã só pode existir estavelmente em determinado grau de complexidade. Essa complexidade é demonstrada a partir da linguagem nas confissões e credos, que presenteiam a Igreja com resumos da instrução bíblica, preservando a fé e a vida comunitária. Nos dias de hoje, o evangelicalismo sofre por carecer de fundamento histórico e doutrinário, e isso faz muitos migrarem para o romanismo. Contudo, o autor demonstra muito bem que o protestantismo oferece uma grande e rica base confessional em contraste a esse cristianismo genérico. O tema do livro é de suma importância em dias em que a Igreja, de um modo geral, é atacada pelo modernismo e relativismo em diversas frentes.

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É candidato ao sagrado ministério do Presbitério de Botucatu (PBTU - IPB) e estudante do quarto ano de Teologia no Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição (JMC). É membro da Igreja Presbiteriana de Itatinga (SP), e trabalha com os adolescentes da Igreja Presbiteriana de Botucatu (SP). Serve também como Secretário Sinodal do trabalho com a adolescência no Sínodo Sudoeste Paulista (SDP).

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