TODO O CONSELHO DE DEUS
Resenha de Caio Henrique Jardim de Oliveira Rocco
MCGRAW, Ryan. Todo o Conselho de Deus: Lógica e Claramente Deduzido das Escrituras. Recife: Os Puritanos, 2014. 69 p.
Ryan McGraw (PhD) é pastor da Covenant Community (OPC) na Carolina do Sul (EUA) e professor no Seminário Teológico Presbiteriano de Greenville. Entre seus escritos, destacam-se as pesquisas acadêmicas “John Owen: Trajectories in Reformed Orthodox Theology” e “Reformed Scholasticism: Recovering the Tools of Reformed Theology”, além de seus escritos devocionais baseados no trinitarianismo clássico, como “Knowing the Trinity: Practical Thoughts for Daily Life”. O livro “Todo o Conselho de Deus” é uma ampliação do primeiro capítulo de sua tese de doutorado.
Nesse livro, McGraw tem como objetivo expor a importância do princípio hermenêutico do “lógica e claramente deduzido”, apresentado no primeiro capítulo da Confissão de Fé de Westminster. Segundo esse princípio, o intérprete bíblico pode inferir verdades doutrinárias que não estão explicitamente expostas na Escritura Sagrada, mas que são seguramente verdadeiras. O autor se preocupa com a crescente negligência desse princípio na Igreja e com os perigos que isso pode trazer.
O prefácio expõe a importância do tema e a estrutura argumentativa do livro. McGraw alerta que a crescente desconfiança em relação à sistematização da teologia ocorre como consequência da negação do princípio de dedução lógica das verdades da Escritura. Ele se propõe a expor a relevância fundamental desse princípio nos capítulos subsequentes.
O primeiro capítulo consiste na definição e ilustração desse princípio. O autor mostra que o princípio da dedução lógica diz respeito à descoberta de doutrinas contidas nas Escrituras, mas que não estão estabelecidas na superfície do texto, ou seja, que não são evidentes a partir da mera leitura de um ou dois versículos. Essas doutrinas são inferidas de uma ou mais passagens e a partir da visão do todo das Escrituras. O autor lembra o leitor de que essas inferências devem ser alcançadas de forma lógica e deduzidas claramente, não de forma arbitrária ou imposta no texto.
Para ilustrar o uso do princípio, o autor usa o exemplo de James Bannerman, que expõe que o texto clássico de Gênesis 1:1 implica, de forma lógica, nas seguintes conclusões: Deus e a natureza são distintos; apenas Deus é eterno, enquanto a matéria teve um princípio; tudo foi criado do nada por Deus. Esse exemplo mostra que o princípio de dedução lógica não leva à alegorização arbitrária, mas sim reconhece implicações indiscutíveis do texto.
Para provar isso, o autor ilustra o uso desse princípio por Jesus Cristo em Mateus 22:29-32. O Filho de Deus, no texto em questão, mostra que os saduceus não conheciam as Escrituras, pois não enxergavam a implicação lógica de que Deus é um Deus de vivos no texto de Êxodo 3:6,15. O autor leva o leitor à conclusão, a partir desses exemplos, de que implicações adequadamente extraídas da Escritura não violentam, mas iluminam o verdadeiro significado do texto.
O segundo capítulo expõe o contexto em que ocorreu a Assembleia de Westminster, que sintetizou o princípio em questão em seus símbolos de fé. A declaração sobre o princípio de dedução lógica diz respeito à hermenêutica, ou seja, à interpretação bíblica. Desde a Idade Média, a Igreja se valeu do princípio da quadriga, que procurava no texto um sentido histórico, um alegórico, um moral e outro anagógico. Apesar disso, mesmo intérpretes sujeitos a esse método interpretativo, como Hugo de São Vítor, Alberto Magno e Tomás de Aquino, deram prioridade e proeminência ao sentido literal, e entendiam que algumas doutrinas, como a da Trindade, são deduzidas como conclusões necessárias desse sentido para a Igreja.
A Reforma Protestante manteve a tradição da exposição literal da Escritura, valendo-se de tipologias regradas para evitar abusos alegóricos arbitrários. Um princípio comum na interpretação dos reformadores foi o da Analogia da Fé, pelo qual a Escritura é interpretada a partir de um corpo doutrinário derivado da própria Escritura. O “lógica e claramente deduzido” deriva dessa compreensão reformada do texto. Sem esse princípio, argumenta o autor, não há aplicação das Escrituras para a Igreja hoje, o que os membros da Assembleia de Westminster entenderam claramente.
O divine de Westminster George Gillespie (1613-1648) observa que a Igreja rejeitou doutrinas heréticas como o arianismo, o socianismo e o anti-trinitarianismo valendo-se do princípio de dedução lógica, e afirmou que o mero uso de texto-prova, como faziam os arminianos, levaria a absurdos, como a negação da distribuição da ceia para mulheres, já que isso não é explicitamente apresentado nas Escrituras. A conclusão do autor neste capítulo é que todo o conselho de Deus, exposto nas Escrituras, não pode ser discernido e exposto de forma completa pelo uso simplista de texto-prova.
O terceiro capítulo expõe a importância do princípio do “lógica e claramente deduzido”. Nos séculos IV e V d.C., esse princípio foi vital para a definição de que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sendo essas duas naturezas distintas em uma só personalidade. Essa conclusão é derivada de um conhecimento vasto das Escrituras e da aplicação de seus princípios. A doutrina da Trindade, também definida a partir do princípio de dedução lógica, afirma que Deus subsiste em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Muitas das práticas de adoração da Igreja também são definidas a partir do princípio de dedução lógica. Em relação aos sacramentos, por exemplo, os batistas requerem um texto explícito para comprovar o pedobatismo. No entanto, a dedução lógica das Escrituras leva o crente a entender que há uma unidade da aliança da graça no Antigo e no Novo Testamento, com a circuncisão sendo substituída pelo batismo.
O quarto capítulo tem como objetivo refutar objeções que se levantam contra o princípio de dedução lógica. As objeções são: 1) doutrinas derivadas desse princípio não podem ser impostas à consciência; 2) o princípio de dedução lógica torna a fé e prática dependentes da racionalização dos homens; 3) esse princípio tira a Bíblia da mão das pessoas e a coloca nas mãos de peritos, que agem como sacerdotes entre homem e Escritura.
A primeira argumentação é contrária à prática de Jesus e dos apóstolos, levando o cristão a descartar doutrinas fundamentais da fé cristã, como a Trindade, o que resulta em heresia. O autor argumenta que a verdadeira liberdade do crente é a liberdade do poder condenador da lei e da morte eterna, e não a liberdade de consciência na interpretação bíblica.
A segunda objeção é respondida pelo fato de que toda formulação doutrinária é obtida por meio do raciocínio e da dedução. A razão, que é um presente do próprio Deus ao homem, recebe doutrinas firmadas e fundamentadas na Palavra de Deus.
A terceira objeção é refutada porque nem todos os crentes entendem todas as coisas da Bíblia igualmente. Por esse mesmo motivo, segundo o autor, o próprio Deus dá dons para alguns homens (pastores e mestres, especialmente) estudarem e ensinarem a Escritura àqueles que entendem menos.
O quinto capítulo se propõe a expor algumas conclusões práticas do princípio exposto. O princípio do “lógica e claramente deduzido” ajuda a compreender o uso que o Novo Testamento faz do Antigo Testamento, fornecendo diretrizes sobre como realizar nosso próprio uso das Escrituras. Esse princípio também nos orienta sobre a aplicação correta dos ensinamentos bíblicos na pregação. E, por fim, também é utilizado como fundamento das doutrinas expostas nos símbolos de fé que subscrevemos.
O autor deixa claro no livro a importância do princípio hermenêutico da dedução lógica no estudo das Escrituras. Sem ele, não é possível conhecer todo o conselho de Deus. Ele demonstra que as doutrinas da Igreja não podem ser embasadas meramente no uso de texto-prova; o intérprete precisa usar a razão dada por Deus para compreender todo o escopo da Palavra revelada. Apenas assim a Igreja pode responder às heresias e sistematizar as verdades doutrinárias.
Certamente, a exposição desse tema é essencial para a Igreja, que muitas vezes negligencia esse princípio, sendo levada a caminhos errados e absurdos. Atualmente, não é difícil encontrar pessoas negando doutrinas fundamentais da Ortodoxia Cristã, como a da Simplicidade Divina, devido à rejeição desse princípio. Mesmo assim, o autor consegue fazer uma defesa e exposição claras desse princípio para a interpretação da Escritura, tornando tal obra fortemente recomendável para pastores e mestres, bem como para os demais membros da Igreja.