A páscoa na história da redenção
Por: Roberto Silva | Prompte et Sincere
Introdução
Nos nossos dias, a páscoa é amplamente celebrada, mas raramente compreendida. Tornou-se, em muitos contextos, uma tradição cultural, um momento de convívio familiar ou até uma experiência meramente simbólica. No entanto, quando abrimos as Escrituras, percebemos que a páscoa não nasce da imaginação humana nem de um desenvolvimento cultural progressivo. Ela procede do decreto eterno de Deus e manifesta-se na história como um acto redentor concreto, que envolve juízo, libertação e aliança.
A páscoa não é, portanto, uma leitura humana ou uma interpretação posterior de um acontecimento. Pelo contrário, ela é parte integrante da própria revelação de Deus, que executa na história aquilo que determinou eternamente. A libertação do Egipto não é um evento que Deus posteriormente interpreta; é um acto redentor previamente ordenado, no qual Deus revela o seu propósito de salvar um povo para si.
Assim, a páscoa não funda a relação entre Deus e o seu povo; antes, expressa e manifesta historicamente a aliança estabelecida pelo próprio Deus. Ao longo da Escritura, este acto redentor não permanece isolado. Ele é progressivamente desenvolvido, aprofundado e conduzido ao seu cumprimento em Cristo, conforme o propósito eterno de Deus.
Para compreendermos a páscoa de forma adequada, precisamos segui-la no seu desenvolvimento orgânico ao longo da revelação, observando cada texto no seu contexto e na sua função dentro da unidade da história da redenção.
1) A origem: a páscoa como redenção fundadora
Êxodo 12:1–14
O contexto de Êxodo 12 é o momento mais crítico da história de Israel até então. O povo encontra-se no Egipto, sob escravidão, sem autonomia e sem esperança de libertação. Após uma série de juízos divinos sobre o Egipto, Deus anuncia o juízo final: a morte dos primogénitos.
É neste cenário que a páscoa é instituída. O texto declara:
“Disse o SENHOR a Moisés e a Arão na terra do Egito: Este mês vos será o principal dos meses; será o primeiro mês do ano. Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês, cada um tomará para si um cordeiro, segundo as casas dos pais, um cordeiro para cada família. Mas, se a família for pequena para um cordeiro, então, convidará ele o seu vizinho mais próximo, conforme o número das almas; conforme o que cada um puder comer, por aí calculareis quantos bastem para o cordeiro.
O cordeiro será sem defeito, macho de um ano; podereis tomar um cordeiro ou um cabrito; e o guardareis até ao décimo quarto dia deste mês; e todo o ajuntamento da congregação de Israel o imolará no crepúsculo da tarde. Tomarão do sangue e o porão em ambas as ombreiras e na verga da porta, nas casas em que o comerem. Naquela noite, comerão a carne assada no fogo, com pães asmos e ervas amargas a comerão. Não comereis dele nada cru, nem cozido em água, porém assado ao fogo; a cabeça, as pernas e as entranhas. Nada deixareis dele até pela manhã; o que, porém, ficar até pela manhã, queimá-lo-eis. Desta maneira o comereis: lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão; comê-lo-eis à pressa; é a Páscoa do SENHOR.
Porque, naquela noite, passarei pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até aos animais; executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o SENHOR. O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; quando eu vir o sangue, passarei por vós, e não haverá entre vós praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito. Este dia vos será por memorial, e o celebrareis como solenidade ao SENHOR; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo.”
Este texto não é apenas descritivo; é constitutivo. Ele estabelece o padrão da redenção segundo o propósito de Deus. A sequência dos imperativos — tomar, guardar, imolar, aplicar o sangue, comer — mostra que a fé se expressa em obediência à Palavra revelada. Contudo, o centro do texto não está na acção humana, mas na acção soberana de Deus: “eu passarei”, “eu ferirei”, “eu executarei juízo”.
O sangue não é um mero símbolo, mas um sinal pactual eficaz, instituído por Deus. Ele indica que o juízo não é anulado, mas satisfeito por meio de um substituto. Desde o início, a páscoa revela que a redenção ocorre segundo o propósito divino, mediante substituição sacrificial.
2) A memória: a páscoa como ordenança permanente
Os seguintes textos são relevantes:
Levítico 23:4–8
Números 9:1–14
Deuteronómio 16:1–8
Depois da saída do Egipto, Israel passa de um povo escravizado para uma comunidade organizada sob a lei de Deus. A páscoa, que foi um acto redentor histórico, é estabelecida por Deus como ordenança contínua.
Em Levítico 23.4-8 lemos:
“São estas as festas fixas do SENHOR, as santas convocações, que proclamareis no seu tempo determinado: no mês primeiro, aos catorze do mês, no crepúsculo da tarde, é a Páscoa do SENHOR. E, aos quinze dias deste mês, é a Festa dos Pães Asmos do SENHOR; sete dias comereis pães asmos. No primeiro dia, tereis santa convocação; nenhum trabalho servil fareis; mas sete dias oferecereis oferta queimada ao SENHOR; ao sétimo dia, haverá santa convocação; nenhum trabalho servil fareis.”
Aqui, a páscoa é integrada no calendário sagrado. Não se trata de mera recordação emocional, mas de uma ordenança divina que regula a vida do povo.
Em Números 9.10-12 lemos:
“Fala aos filhos de Israel, dizendo: Se algum de vós ou de vossos descendentes estiver imundo por causa de cadáver ou se achar em viagem longe, ainda assim celebrará a Páscoa ao SENHOR. No segundo mês, no dia catorze, no crepúsculo da tarde, a celebrarão; com pães asmos e ervas amargas a comerão. Dela nada deixarão até pela manhã, nem dela quebrarão osso algum; segundo todo o estatuto da Páscoa a celebrarão.”
A lei revela a sabedoria e a graça de Deus, garantindo que o seu povo participe daquilo que Ele instituiu, sem alterar o princípio estabelecido.
Em Deuteronómio 16.5-7 lemos:
“Não poderás sacrificar a Páscoa em nenhuma das tuas cidades que te dá o SENHOR, teu Deus; senão no lugar que escolher o SENHOR, teu Deus, para ali fazer habitar o seu nome; ali sacrificarás a Páscoa à tarde, ao pôr do sol, ao tempo determinado da tua saída do Egito. Nela a cozerás e comerás no lugar que escolher o SENHOR, teu Deus; pela manhã, voltarás e irás às tuas tendas.”
A centralização do culto demonstra que a adoração não é determinada pela vontade humana, mas pela revelação divina. Assim, a páscoa não é simplesmente lembrança do passado, mas ordenança divina que mantém viva a consciência da redenção dentro da aliança.
3) A continuidade: a páscoa na terra prometida
Josué 5:10–12
“Estando, pois, os filhos de Israel acampados em Gilgal, celebraram a Páscoa no dia catorze do mês, à tarde, nas campinas de Jericó. No dia seguinte à Páscoa, comeram do fruto da terra; naquele mesmo dia, pães asmos e cereal tostado. No dia imediato, depois que comeram do fruto da terra, cessou o maná; e não tiveram mais os filhos de Israel maná; porém, naquele ano, comeram das novidades da terra de Canaã.”
Este momento revela a continuidade do propósito de Deus. Aquele que libertou o povo é o mesmo que o estabelece na terra. A páscoa confirma que a redenção não é um episódio isolado, mas parte de um plano contínuo que conduz o povo ao cumprimento das promessas.
4) A restauração: a páscoa em tempos de crise
2 Crónicas 30; 35
Em 2 Crónicas 30.21 lemos:
“Assim, os filhos de Israel que se acharam em Jerusalém celebraram a Festa dos Pães Asmos por sete dias, com grande alegria; e os levitas e os sacerdotes louvaram ao SENHOR de dia em dia, com instrumentos fortemente retinentes para com o SENHOR.”
Em 2 Crónicas 35.18 lemos:
“Nunca se celebrou tal Páscoa em Israel, desde os dias do profeta Samuel; nenhum dos reis de Israel celebrou tal Páscoa como a que celebrou Josias, com os sacerdotes, os levitas, todo o Judá e Israel que ali se acharam e os habitantes de Jerusalém.”
A restauração não consiste em inovação, mas em retorno à Palavra. A páscoa reassume o seu lugar como expressão da aliança e da fidelidade ao Senhor.
5) O cumprimento: Cristo, nossa páscoa
Os seguintes textos são relevantes neste aspecto:
Mateus 26
João 19
1 Coríntios 5
Em Mateus 26.26-28 lemos:
“Enquanto comiam, tomou Jesus um pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.”
Em João 19.30, é-nos dito:
“E isto aconteceu para se cumprir a Escritura: Nenhum dos seus ossos será quebrado.”
Em 1 Coríntios 5.7-8 é declarado:
“Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de facto, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia, e sim com os asmos da sinceridade e da verdade.”
Cristo não redefine arbitrariamente a páscoa; Ele é o cumprimento daquilo que Deus já havia ordenado e revelado. O cordeiro pascal encontra nele a sua realidade plena.
6) A consumação: o cordeiro exaltado
Apocalipse 5:6–13
“Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto […] Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos.”
A redenção atinge o seu clímax. O Cordeiro não está apenas no passado da cruz, mas no presente da glória. A obra redentora permanece eternamente eficaz e central na adoração.
Conclusão
Ao percorrermos toda a Escritura, vemos que a páscoa não é uma tradição religiosa, mas a manifestação histórica do propósito eterno de Deus. Ela revela que Deus salva o seu povo segundo o seu decreto, mediante um sacrifício substitutivo, e conduz essa obra até à sua consumação em Cristo.
Diante disso, torna-se claro que a páscoa não pode ser reduzida a símbolo cultural ou experiência emocional. Ela confronta-nos com a realidade do pecado, com a certeza do juízo e com a necessidade de redenção.
Assim, viver à luz da páscoa significa reconhecer que a nossa esperança não está em nós mesmos, mas na obra consumada de Cristo.
E, finalmente, significa viver com os olhos postos na glória futura, onde o Cordeiro reina e é eternamente adorado.
Referências bibliográficas
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